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Memória e Inteligência
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Memória e Inteligência

Durante toda a história da humanidade, os estudos da memória dividiram-se em dois pólos, um que atribuía à memória apenas o papel de reservatório de dados , com papel de retenção e reativação, apenas um mecanismo de conservação da informação, muito distinto da inteligência. O outro atribuía à memória um papel inteligente, de organização sobretudo figurativa, mas baseada no completo esquematismo da inteligência.

Piaget, em seu trabalho estudando a memória das crianças, trouxe conclusões que vêm reforçar esta segunda ótica, que coadunam com a visão de memória inteligente defendida neste trabalho:

"A memória, no sentido lato, não é pelo contrário simbólica neste sentido, embora utilize os símbolos em forma de imagens: ela é uma forma de conhecimento, como outras (um saber ou um saber-fazer), que não se resume ao dado presente, como a percepção, nem á solução de novos problemas, como a inteligência, em sua função específica, mas sim à estruturação e a reconstituição do passado. Ocorre apenas que esta reconstituição é também um problema, cuja solução para o paciente não é automática e eis porque a memória é inseparável da inteligência."[PIA 79, p. 377]

 

Piaget concluiu, segundo seus experimentos, que não é coerente aceitar essa dualidade: inteligência de um lado, que compreende ou inventa, mas não conserva, a não ser reconstruindo, e a memória, por outro lado, centrada apenas sobre a retenção, porém sem incorporar a compreensão e sobretudo a invenção. Pelo contrário, a lembrança, enquanto organização do passado, utilizaria esquemas pré-operatórios ou operatórios, porém em uma direção que lhe é específica: construir, conservar ou reconstituir imagens concretas de acontecimentos particulares, concebidos como tendo ocorrido na realidade ( o que é um julgamento análogo aos julgamentos de existência, que são específicos à inteligência ), mas no passado e a título singular, enquanto que a inteligência, em sua atividade habitual orienta-se para a pesquisa do geral, do previsível e das estruturas mais ou menos abstratas (enquanto gerais). Nesta perspectiva a evolução da memória com a idade é então a história de organizações progressivas, estreitamente dependentes das estruturações da inteligência.

Para Piaget, parece evidente que a referência ou a ligação de uma lembrança ao passado comporta, de um forma ou de outra, um elemento de decisão ou de juízo.

Piaget definiu a inteligência envolvida nos mecanismos de memória como uma inteligência voltada à organização dos fatos passados, reais, acontecidos, enquanto a inteligência na sua definição tradicional estaria mais ligada ao futuro, à construção de previsões e à avaliação de possibilidades. Mas vá-se um pouco à frente. O que ocorre quando alguém se depara com uma nova situação ? Não recorre à sua extensa "biblioteca" de experiências vividas, buscando um modelo próximo ao novo agora vivenciado? Ao fazer isto, busca não somente as memórias intrínsecas ao fato em si, mas também as sensações e impressões oriundas da experiência. Não são estas impressões ou juízos de experiências anteriores que ajudam a avaliar e prever as possibilidades de reação frente a uma nova situação?

Quando alguém é exposto a uma nova situação, sujeito de sua atenção, necessita construir um modelo desta situação para que ela seja fixada. Esse modelo, representação, neste momento, está no foco do sistema cognitivo. Na construção deste modelo e no seu posicionamento na rede de memórias associativas são de fundamental importância experiências anteriormente vivenciadas (memórias anteriores).

Tão forte é este processo de interpretação, que se tem grande dificuldade de discriminar entre os fatos efetivamente vivenciados e as elaborações que se associam a eles. Em casos jurídicos, já é notório o fato das testemunhas misturarem os fatos com suas próprias interpretações.[LEV 93]

A memória de curto prazo permite gravar em torno de sete palavras, no entanto, as pessoas são incapazes de memorizá-las em uma língua que desconhecem. A explicação para este fenômeno parece estar localizada no fato de que qualquer aquisição de novos conhecimentos constitui um vaivém entre a memória a longo prazo, de onde são recuperados estes conhecimentos, e a memória de curto prazo, que os reúne em uma nova ordem. Daí o fato de alguns autores considerarem a memória de curto prazo como "janelas" abertas sobre trechos de memória a longo prazo. Continuando, o que acontece é mais ou menos o que um estudante faz quando está preparando um trabalho: ele pesquisa numa biblioteca os livros que precisa para extrair as informações e depois reordená-las. Mas o que faria se a biblioteca estivesse vazia? Se a memória a longo prazo não está bem provida de informações, a aquisição de novos conhecimentos fica comprometida. Com efeito, a avaliação do êxito escolar de crianças parece estar ligado tanto à quantidade de conhecimentos armazenados na memória dos alunos quanto à qualidade da organização deste conhecimento.[LIE 97]

Um exemplo claro deste processo foi um programa realizado no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Aprendizagem da Universidade de Pittsburgh, com crianças de comunidades desfavorecidas. Este programa visava a criação de um treinamento de vocabulário com o objetivo do aprendizado conceitual de novas palavras. O cuidado de variar o contexto facilitou o engendramento na memória semântica dos diversos significados das palavras. Em um teste no qual os alunos têm que apreender uma história que contém as palavras do treinamento, a absorção das idéias principais é duas vezes maior nos participantes do treinamento do que no grupo de controle (sem treinamento). [LIE 97]

Assim, caso se afirme que uma baleia é um mamífero, e se sabe que os mamíferos têm mamas, geram seus filhos na barriga, respiram por pulmões, etc. Portanto não é um peixe. Com a simples indicação de que a baleia é um mamífero, o contexto da frase terá fornecido múltiplas informações semânticas de maneira concentrada. Por meio deste exemplo, pode-se compreender que o contexto só esclarece se a memória semântica for rica. Uma criança que desconhece o significado da palavra "mamífero" não aprenderia nada com a frase.

Alain Lieury defende a leitura como um dos principais métodos de armazenamento do sentido na memória semântica. No processo de leitura, milhões de palavras são decompostas para a extração de traços semânticos.

Lévy cita em seu livro "As Tecnologias da Inteligência" quatro regras de representação que teriam possibilidade de longa duração em um sistema cognitivo formado por memórias humanas:

 

  1. As representações devem ser ricamente interconectadas entre elas. Devem-se evitar listas e outras formas de representação da informação de forma modular, recortada.
  2. As conexões entre representações devem envolver principalmente relações de causa e efeito;
  3. As proposições deverão fazer referência a domínios do conhecimento concretos e familiares ao sujeito das memórias, facilitando desta forma a ligação a esquemas preestabelecidos.
  4. As representações devem manter intimidade com a rotina do sujeito das memórias, com seu envolvimento direto e carregadas de emoção.

Segundo Lévy, pode-se otimizar ainda mais este processo, agregando memórias musicais e sensório-motoras a memórias semânticas.

Não é fácil portanto, avaliar onde termina a inteligência envolvida nos mecanismos da memória e onde começa a inteligência no seu enfoque tradicional.

 
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