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DINOSSAUROS!

Gerson Lodi-Ribeiro & Ronaldo Fernandes

"Fitou intrigado a superfície límpida da poça d'água onde ele e os companheiros bebiam. O reflexo de um animal de focinho achatado e dentes pontiagudos retribuiu ao seu olhar. Um animal bípede, pouco menor que um avestruz, porém mais robusto, com patas musculosas terminadas em três grandes dedos dianteiros e um dedo pequeno no lugar onde um ser humano teria o calcanhar. Do dedo grande mais interno irrompia verticalmente, curvando-se para a frente, uma garra do tamanho de uma adaga, e com o formato de uma foice.

Ele levantou a cabeça e piscou uma ou duas vezes. Seu papo se encheu um pouco quando emitiu um ronco grave quase inaudível para a sua matilha. Avançar!

Da pequena elevação, agachada por entre o capim alto, a matilha vislumbrou pela primeira vez a manada de tenontossauros, embora o vento já lhe trouxesse há algum tempo o aroma delicioso dos herbívoros. As presas eram quadrúpedes malhados, do tamanho aproximado de um cavalo, com longas caudas e crânios pequenos no topo de pescoços compridos.

Suas mandíbulas estalaram. Numa espécie de acordo tácito, a matilha se dividiu, formando um círculo largo, rodeando pouco a pouco a manada. Avançando sorrateiros por entre o capim, eram quase invisíveis. Da outra extremidade da pradaria onde pastavam os tenontossauros, um dos machos da manada guinchou o alerta. A matilha havia sido descoberta.

Os dinossauros herbívoros assumiram uma formação defensiva grosseiramente circular, com os machos adultos na periferia e as fêmeas e crias no centro. Mas houve retardatários. Dois ou três machos idosos não foram ágeis o bastante para formar fileiras com os mais jovens, ficando à margem do círculo. A matilha centrou sua atenção num desses machos, esquecendo as outras presas em potencial.

Foi o primeiro a saltar. Após uma breve corrida, tomou impulso e deu o bote. Aterrissou com as patas nas costas do tenontossauro, cravando suas garras-foice próximo ao pescoço da vítima. Dois companheiros o seguiram. Um deles também espetou suas garras no lombo da presa, que começara a guinchar em desespero. O outro cerrou os dentes na base da cauda da vítima. Os quatro predadores restantes acossaram o círculo defensivo, impedindo-o de prestar socorro à presa escolhida.

Num último esforço, o herbívoro girou a cauda longa e musculosa como se fosse um chicote. Foi tão rápido que ele não viu o que o atingiu, quando deu por si, estava caído de lado sobre o capim da pradaria. Uma das garras-foice estava torcida de modo grotesco e lhe doía incrivelmente. Mas cheio de adrenalina como estava, encontrou forças para se reerguer e abocanhar uma das coxas da presa, que então, já com várias feridas profundas, sangrava abundantemente e começava a dar sinais de exaustão.

Menos de um minuto depois, liderava a descarnagem do tenontossauro. A manada se afastara para uma distância respeitável e a matilha atuava despreocupadamente, observada de longe por alguns carnívoros de pequeno porte, ávidos por avançarem para as futuras sobras do festim.

Mas aquela foi a última caçada que liderara. A ferida na pata inflamara e a garra-foice acabara caindo. Deixara de sentir tanta dor, mas com os tendões de uma das patas rompido, não conseguia manter um bom equilíbrio. E, com apenas uma das garras, não era páreo para os outros machos adultos da matilha. Agora, contentava-se com o que podia capturar sozinho. Pequenos mamíferos roedores num dia, talvez alguns ovos de tricerátopes no seguinte, mas na maioria das noites dormia mal, com o estômago roncando o tempo todo. "

* * *

Os dinossauros foram o grupo de vertebrados terrestres mais bem sucedido da história do planeta. Durante os 140 milhões de anos em que viveram, ocuparam quase a totalidade dos nichos ecológicos disponíveis para animais terrestres de médio e grande porte e produziram uma enorme variedade de formas, sendo que alguns de seus descendentes sobrevivem até hoje como aves.

Os dinossauros pertencem ao grupo dos arcossauros. Também pertencem a esse grupo, dentre outros, os crocodilos e os pterossauros. Geralmente, estes últimos, assim como diversos outros grupos de répteis aquáticos fósseis, como os plesiossauros e ictiossauros são confundidos pelos leigos com os dinossauros, embora possuam uma história evolutiva diversa, sendo colocados em grupos a parte.

Os dinossauros propriamente ditos existiram em duas linhagens principais: os ornistíqueos (um grupo de herbívoros bastante numeroso e diversificado) e os sauropodomorfos. Estes últimos se dividem em saurópodos (herbívoros) e terópodos (carnívoros).

A imagem dos dinossauros é geralmente associada a dos répteis de hoje, animais ectotérmicos e de baixos índices de atividade metabólica. Tal imagem se formou no início deste século, quando os dinossauros foram pouco estudados. Os primeiros estudiosos do século XIX tinham uma visão bem diferente. Eles consideravam os dinossauros como animais de grande vigor físico, de forma alguma apresentando os padrões de atividade dos répteis atuais. De qualquer forma, a concepção científica vigente até meados da década de 1960 era que os dinossauros seriam animais grandes e ineficientes, que se arrastavam com lentidão pelos pântanos e charcos da Era Mesozóica.

NOVAS CONCEPÇÕES

Durante a década de 1960, um paleontólogo chamado Robert Bakker começou a por em cheque a concepção clássica dos dinossauros. Inicialmente, Bakker estudou a anatomia do tricerátope, um ornistíqueo quadrúpede com a cabeça protegida por uma placa com três chifres, e chegou a conclusão que, assim como os rinocerontes, esses animais eram capazes de cavalgar, mantendo, em alguns momentos, as quatro patas sem contato com o solo. Esta proposição simples criou surpreendentemente uma grande controvérsia. Alguns paleontólogos chegaram a afirmar que as conclusões de Bakker eram absurdas, porque o rinoceronte, o maior mamífero cavalgador, pesa apenas três toneladas, contra as cinco toneladas de um tricerátope, e não faria sentido, pelo menos para aqueles paleontólogos, que um animal atual fosse menos eficiente que um outro extinto... Esse tipo de discussão serve para demonstrar que, apesar da imagem que o grande público possui da Ciência e dos cientistas, alguns destes costumam defender suas teses com grande emotividade, muitas vezes apelando mesmo para argumentos completamente irracionais.

Posteriormente, estudos anatômicos mostraram que o apatossauro (mais conhecido pela alcunha de "brontossauro") e outros saurópodos semelhantes, eram capazes não só de sustentar o seu peso fora d'água, mas também se erguerem sobre as patas traseiras. A idéia vigente na época era a que essas criaturas viveriam a maior parte de suas vidas semi-submersos nos pântanos, sendo que algumas espécies manteriam apenas o topo da cabeça emerso (evidentemente, um animal daquele porte com a cabeça fora d'água e os pulmões submersos a seis metros de profundidade, não seria capaz de respirar devido ao diferencial de pressão). Curiosamente, Bakker descobriu mais tarde que não havia sido encontrado um fóssil sequer nas regiões que na época eram pântanos ou lagos. Alguns eram provenientes de rios, mas estes poderiam ter sido mortos em enchentes. A concepção popular do brontossauro escapando dos predadores ao mergulhar na água não resistiu a uma análise mais cuidadosa; especialmente, porque os dinossauros predadores possuíam formas estruturalmente mais adequadas à natação.

Ao final da década de 1960, outro pesquisador, John Ostrom, começou a estudar um gênero de terópode conhecido como Velociraptor. Estes animais possuíam um corpo esguio, postura bípede e pernas fortes e compridas, o que leva a crer que tenha sido um corredor. O Velociraptor foi, provavelmente um dos predadores mais eficientes da época para o seu tamanho. Possuía garras afiadas nas patas anteriores e uma mandíbula forte, equipada com dentes cortantes. Mas sua principal arma ofensiva era uma grande garra em forma de foice em cada uma das patas posteriores. Isso indica que o mecanismo de ataque do Velociraptor consistia num salto, no qual levantava uma ou ambas as patas traseiras, de forma que suas garras pudessem rasgar, de cima para baixo, o corpo de sua vítima. Esta conformação anatômica implica em que o animal fosse capaz de uma caçada sofisticada envolvendo grandes custos metabólicos, ao contrário do que a paleontologia ortodoxa esperaria para os dinossauros.

Outros pesquisadores começaram a realizar trabalhos de avaliação das comunidades de dinossauros. A existência de sítios paleontológicos com pegadas deixadas por dinossauros é bem conhecida; mesmo no Brasil há alguns, sendo especialmente famoso o da Bacia do Rio do Peixe, na Paraíba. O estudo desses rastros indicam que muitos desses animais viviam em manadas, e há indícios de que protegiam os filhotes.

Outro paleontólogo norte-americano, J.R. Horner, estudou os registros fósseis de algumas espécies de hadrossauros (ordem de dinossauros herbívoros do período Cretáceo, com formas bípedes e quadrúpedes, popularmente designados como "bicos-de-pato"), descobrindo que eles construíam ninhos e chocavam seus ovos em sistemas de colônias semelhantes aos de algumas famílias de pássaros marinhos atuais. Além disso, a presença de fósseis juvenis em meio a fósseis de espécimes adultos sugeriu que o mecanismo de proteção materna não se limitaria à fase correspondente aos poucos meses que se seguiriam à eclosão dos ovos. O porte de alguns fósseis de indivíduos jovens leva a crer que devam pertencer a ninhadas anteriores de uma mesma hadrossauro fêmea.

A partir desses fatos, Bakker começou a desenvolver a teoria que os dinossauros, ao contrário dos répteis de hoje, eram animais endotérmicos, metabolicamente mais próximos aos mamíferos e aves atuais. Os argumentos de Bakker eram bastante simples.

ENDOTERMIA?

Os dinossauros possuíam membros com postura ereta, não se arrastando pelo solo como a maioria dos répteis. Muitos dinossauros tinham mesmo o corpo totalmente ereto, permitindo o bipedalismo (como muitos mamíferos e todas as aves). Tal postura leva a um posicionamento elevado da cabeça em relação ao coração; implicando na necessidade de uma pressão sangüínea muito alta para bombear o sangue até o cérebro. Essa pressão destruiria os delicados capilares dos pulmões, caso a circulação fosse aberta, como a de grande parte dos répteis, i.e, sem a separação dentro do coração entre os sangues venoso e arterial. Logo, os dinossauros deveriam possuir um coração inteiramente dividido em quatro câmaras, para poder manter um sistema de circulação fechada. Este é o tipo de coração existente nas aves e mamíferos atuais. Se os dinossauros também possuíram um órgão deste tipo, também deveriam ser endotérmicos. Este tipo de argumento, embora aparentemente positivo para a endotermia dos dinossauros, não é em absoluto conclusivo. Nada impede que seres ectotérmicos possuam o coração completamente dividido; na realidade, os crocodilos, um grupo relativamente próximo dos dinossauros, possuem um coração assim. Além disso, vários lagartos atuais podem manter bipedalia, ainda que por períodos limitados.

Outro argumento seria a distribuição geográfica dos dinossauros, que habitariam até mesmo as regiões polares de sua época. Animais ectotérmicos não são capazes de viver normalmente em áreas mais frias devido à ausência de radiação solar em quantidade suficiente para manter sua temperatura corporal. Este argumento foi contestado com a observação de que o clima era muito mais ameno no Mesozóico do que hoje em dia e estas regiões polares possuíam vegetação tipicamente subtropical.

Outra evidência seria a grande semelhança estrutural dos tecidos ósseos dos dinossauros com os dos mamíferos. Nesses, os tecidos se apresentam altamente vascularizados, em contraste, por exemplo, com os tecidos ósseos de um lagarto. Esta similaridade estaria associada aos altos índices de atividades dos mamíferos e, por conseguinte, dos dinossauros. Entretanto, alguns zoólogos começaram a encontrar casos de tecidos ósseos pouco vascularizados em algumas aves e mamíferos, e alguns répteis com tecidos altamente vascularizados. Aparentemente, a alta vascularização esta associada ao crescimento rápido do animal ou à necessidade de suportar cargas pesadas. Ambas as características estão comumente associadas à maioria dos dinossauros.

O tamanho do cérebro foi outro dos argumentos levantados por Bakker. Aves e mamíferos possuem cérebros relativamente grandes e exibem uma atividade considerada inteligente. Répteis ectotérmicos, por seu lado, possuem cérebros bem menores em relação ao seu tamanho, e um comportamento mais estereotipado. Cérebros grandes e complexos necessitam de maior infra-estrutura, como um suprimento adequado de nutrientes e oxigênio e temperatura constantes para funcionar corretamente. Em princípio, isto contrariaria a teoria da endotermia, uma vez que os dinossauros são famosos pela falta de capacidade cerebral. Porém estudos recentes mostram que o tamanho do cérebro dos dinossauros eram comparáveis, pelo menos, ao dos répteis. Nos terópodos e ornistíqueos, dinossauros bípedes carnívoros e herbívoros respectivamente, as massas cerebrais eram muito superiores às dos répteis, e um terópode do Cretáceo, o estenonicossauro, tinha um cérebro de tamanho equivalente ao de mamíferos e aves atuais de mesmo porte. Outro fator relacionado seria, como visto, o comportamento avançado dos dinossauros, incluindo o cuidado com a prole e a vida em manadas. Entrementes, esse argumento se torna nebuloso quando se lembra que os crocodilos também são capazes de comportamentos extremamente complexos.

Bakker também argumentou quanto ao aparente nível de atividade de alguns dinossauros, especialmente os predadores de pequeno e médio porte. Muitos terópodos, como o Velociraptor (protagonista da introdução), podiam atingir velocidades elevadas. Esse animal parecia pular sobre suas vítimas para atacá-las com as garras das patas traseiras. Este argumento depende da presunção de que apenas animais endotérmicos possam manter um nível de atividade tão alto. Entretanto, os répteis atuais podem executar atividades bastante extenuantes, desde que por curto intervalo de tempo.

Outra evidência viria da competição entre os primeiros mamíferos e os dinossauros e seus antepassados diretos. No início do Triássico, os terapsídeos (antepassados dos mamíferos) foram extintos em decorrência de um processo de competição pelos mesmos nichos ecológicos com os tecodontes, ancestrais dos dinossauros. Bakker considera impossível que a linhagem dos mamíferos tivesse sido sobrepujada pelos arcossauros, a não ser que estes também fossem endotérmicos. Neste ponto, os argumentos de Bakker se tornam confusos. A competição envolveu primariamente terapsídeos e tecodontes; se estes últimos tivessem desenvolvido endotermia, porque esta característica não estaria presente nos crocodilos, que também descendem deles? Além disso, a postura ereta dos membros pode ter sido, per si, um fator decisivo na competição.

A idéia mais elegante de Bakker foi, sem dúvida alguma, a comparação das taxas predador/presa em animais endotérmicos e ectotérmicos.

Para manterem sua temperatura corporal constante, os animais endotérmicos necessitam gastar uma quantidade relativamente grande de energia. Por isso, o consumo energético de um animal endotérmico é consideravelmente maior do que o de um ectotérmico de mesmo porte - para manterem sua maquinaria metabólica sofisticada em pleno funcionamento, as criaturas endotérmicas precisam de muito mais alimento.

Em comunidades cujo topo da cadeia alimentar fosse ocupado por predadores ectotérmicos deveria existir um número muito menor de presas para cada predador do que em uma outra comunidade, com predadores endotérmicos. Bakker estudou diversas comunidades, fósseis e atuais, avaliando a taxa predador/presa de cada uma delas. Como resultado, concluiu que os dinossauros estavam muito mais próximos dos mamíferos recentes e fósseis do que dos predadores ectotérmicos. Esta proximidade foi contestada por alguns pesquisadores, que demonstraram que estes números também são aplicáveis para os Dragões de Komodo, lagartos com cerca de 3 metros que habitam uma ilha do Arquipélago Indonésio e argumentaram que os cálculos para comunidades fósseis são por demais imprecisos para serem levados a sério. Recentemente, mostrou-se que o cálculo efetuado pelos contestadores da teoria da endotermia para os Dragões de Komodo está incorreto, e que estes répteis se comportam como predadores ectotérmicos normais.

Por último, Bakker sugeriu que, se as aves realmente evoluíram do interior de uma linhagem de dinossauros (conforme se verá a seguir), é razoável se supor que os dinossauros, ou pelo menos aqueles próximos aos ancestrais das aves (terópodos) poderiam ser endotérmicos também.

Os pontos de vista de Bakker são seguidos por uma minoria de indivíduos da comunidade de paleontologia. Suas hipóteses parecem mais prováveis quando limitadas apenas aos terópodos. Alguns especialistas consideram que a homeotermia (temperatura corporal constante) poderia ser obtida através da manutenção de um corpo de grandes dimensões; afinal, quanto maior o volume, proporcionalmente menor será a superfície do corpo e, conseqüentemente, a perda de calor. Já os répteis atuais, embora não gerem seu próprio calor, são capazes de manter a temperatura estável através de uma série de artifícios comportamentais (regulando a exposição ao sol; a distância a manter do solo; etc.). As especulações de Bakker são de grande importância para a paleontologia de vertebrados, porque, mesmo que se revelem no futuro incorretas, revolucionaram o estudo dos dinossauros, a ponto de alguns autores considerarem a fase atual como uma espécie de "Renascença dos Dinossauros".

DINOSSAUROS E AVES

A questão de as aves e os répteis serem intimamente relacionados é indiscutível. Há corroboração razoável no fato de ambos possuírem escamas e colocarem ovos semelhantes. Além disso, desde o século passado, sabe-se que as aves também se originaram dos arcossauros graças a diversas novidades evolutivas compartilhadas por ambos e ao fóssil de uma criatura, o Archaeopteryx, tida como a ave mais primitiva conhecida, possuir garras e dentes.

O primeiro grande trabalho revisionista para o assunto foi publicado em 1926 por Gerhard Heilmann. Utilizando praticamente todo o conhecimento na época aplicável, Heilmann chegou à conclusão de que os coleossauros, um grupo de terópodos, eram os melhores candidatos a ancestrais das aves. Infelizmente, acreditava-se então que os dinossauros não possuíam clavículas, ossos que nas aves são fundidos no "osso-da-sorte". Dessa forma, Heilmann preferiu supor que as aves teriam sua origem num grupo primitivo de arcossauros tecodontes.

Só na década de 1970 ressurgiram hipóteses ligando a origem das aves aos dinossauros. Sobrepondo-se a algumas teorias contemporâneas, Ostrom reviveu a hipótese dos coleossauros como ancestrais das aves. Ostrom foi capaz de encontrar mais de 20 características compartilhadas entre os dois grupos e comprovou a existência de clavículas em alguns terópodos (adicionalmente, alguns embriologistas modernos afirmam que o "osso-da-sorte" não é equivalente às clavículas).

Alguns opositores, em especial alguns embriologistas, acreditam ter encontrado uma falha na hipótese de Ostrom. Os dedos das aves são correspondentes aos 2º, 3º e 4º dedos, enquanto que os dedos dos terópodos aos 1º, 2º e 3º. O mais interessante, entretanto, é que o Archaeopteryx parece possuir os dedos 1, 2 e 3, o que pode significar que essa forma fóssil não possui relacionamento estreito com as aves. Esta posição é partilhada por Gregory Paul, que considera o Archaeopteryx como um terópode comum. Paul julga que as aves teriam um parentesco mais próximo com o grupo dos Velociraptor. As penas seriam, segundo Paul, uma característica adquirida pelos primeiros terópodos com a função de órgãos reguladores de temperatura.

EXTINÇÃO

As populações de dinossauros mantiveram-se estáveis, com grande variedade, ao longo de 140 milhões de anos, até o fim do período Cretáceo, quando repentinamente se extinguiram. Esse processo de extinção em massa não atingiu apenas os dinossauros. Houve o desaparecimento completo dos répteis alados e aquáticos (à exceção das tartarugas), das aves primitivas e a extinção de grande parte das formas vegetais.

Devido à amplitude e velocidade do evento, uma teoria para a extinção em massa no fim do Cretáceo não se pode limitar aos desaparecimento dos dinossauros. O mistério desse desaparecimento súbito (geologicamente falando), contudo, sempre teve um apelo muito grande frente ao público, o que de certo modo justifica a proliferação de teorias explicativas, algumas elaboradas por não-especialistas; por vezes inteiramente sem nexo. A teoria popular dos pequenos mamíferos ovívoros, por exemplo, que advoga a repentina predileção alimentar de algumas espécies de mamíferos pelos ovos dos dinossauros, é totalmente implausível. Não só deixa de explicar a extinção de outras formas, como também contraria o bom senso. Pensar que umas poucas espécies pudessem comer todos os ovos de dinossauros é no mínimo ridículo, afinal nem se sabe se todos os dinossauros eram ovíparos. Além disso, se esses mamíferos agissem dessa maneira, teriam decretado sua própria extinção, morrendo de fome poucos dias depois de comerem o último ovo.

Uma explicação bastante conhecida é a da explosão de uma estrela próxima sob a forma de supernova. Uma explosão desse tipo iria banhar a Terra com quantidades de radiação ionizante e de raios cósmicos tais que poderiam acarretar num mecanismo de extinção em massa. Existem, contudo, dois problemas. Primeiro, a radiação não é seletiva, ou seja, não é capaz de afetar somente alguns tipos de animais, deixando outros incólumes. Segundo e mais importante, não há na vizinhança do Sistema Solar evidência astronômica de remanescentes de uma supernova com idade idêntica à da extinção em massa do final do Cretáceo.

Outra teoria advoga uma alteração climática abrupta como agente desencadeador do processo de extinção em massa. Estudos paleoclimáticos mostram que o clima norte-americano mudou consideravelmente nos últimos 5 a 10 milhões de anos do Cretáceo, tendo a temperatura baixado. Acompanhando esse fenômeno, houve uma mudança na vegetação, de tropical e subtropical para temperada. Tal mudança provocou uma diminuição da diversidade animal. Observa-se que a variedade entre os dinossauros baixou de modo considerável ao longo dos últimos milhões de anos desse período geológico. No oeste da América do Norte, a diversidade entre os animais de grande porte se reduziu entre os herbívoros a apenas uma ou duas espécies de tricerátope, e uma de tiranossauro entre os carnívoros.

Uma hipótese de grande aceitação no momento é a de um impacto de um grande meteorito contra a Terra. Observando as camadas geológicas do final do Cretáceo na Itália, uma equipe liderada por Luiz Alvarez encontrou uma concentração muito elevada de irídio, ósmio e outros metais pesados. Apesar de extremamente raro na crosta terrestre, o irídio é relativamente mais abundante em meteoritos de níquel-ferro. Prospecções em outras regiões mostraram que essa concentração anômala é um fenômeno de escala planetária. A anomalia foi explicada por Alvarez como uma evidência do impacto de um objeto massivo contra a Terra.

O impacto de um meteorito de 10 a 15 Km de diâmetro produziria um efeito de inverno nuclear semelhante ao proporcionado por uma conflito termonuclear total. Uma nuvem de pó e vapor cobriria toda a superfície do planeta por vários meses, bloqueando a luz solar necessária às plantas. Estas são a base das cadeias alimentares das quais depende a quase totalidade da vida animal. A maioria das formas animais próximas ao topo da pirâmide seriam extintos. Haveria maiores possibilidades de sobrevivência para animais menos especializados e exigentes.

Um obstáculo a esta teoria é que este não foi o único impacto sofrido durante o Mesozóico. Outros cinco impactos, por vezes acompanhados de extinções em massa, já haviam ocorrido nessa era geológica. Em pelo menos dois deles, muitas linhagens de dinossauros se extinguiram abruptamente, mas as famílias remanescentes evoluíram e se diferenciaram, tornando a ocupar os nichos ecológicos deixados vagos pelo processo de extinção em massa anterior.

Em que teria o impacto do final do Cretáceo se distinguido das catástrofes que lhe antecederam? O meteorito teria sido maior, ou caíra numa região mais crítica? Nada indica que tenha sido esse o caso. Talvez uma conjunção de fatores adversos se tenha reunido em prol da extinção dos dinossauros. Se as alterações climáticas foram de fato capazes de reduzir drasticamente a diversidade entre os dinossauros, deixando apenas umas poucas formas mais especializadas - isto é, aquelas que conseguiram evoluir, de forma a desenvolverem adaptações bem sucedidas ao novo padrão climático - então estas poderiam ter sido facilmente extintas nos meses que se sucederam ao impacto. Se o nível de diversidade tivesse sido similar aos existentes no início dos processos de extinção em massa anteriores, os dinossauros teriam sido provavelmente capazes de resistir.

Paralelamente ao trabalho da equipe de Alvarez, dois paleontólogos da Universidade de Chicago, D. Raup e J. Sepkoski, após compilarem os registros geológicos das extinções em massa em ambientes marinhos, concluíram que esses processos são fenômenos cíclicos com uma periodicidade constante de cerca de 26 milhões de anos. O modelo teórico que melhor explicaria essas extinções periódicas consiste na existência de uma estrela companheira: o Sol não seria uma estrela singular, mas o primário de um sistema duplo muito excêntrico.

O fato da outra estrela do sistema - sugestivamente batizada como Nêmesis - não ter sido até o momento descoberta se prenderia ao fato de ela ser uma anã vermelha (o tipo de estrela normal menos brilhante que se conhece) com órbita muito excêntrica, que se manteria bastante afastada do Sol durante a maior parte de seu período de 26 milhões de anos. Somente durante cerca de 500 mil anos, ela se aproximaria do primário a ponto de perturbar a nuvem cometária que existe em torno deste. Nessas ocasiões, verdadeiras chuvas de cometas, asteróides e meteoritos despencariam literalmente sobre os planetas orbitantes em torno do Sol. O vigor desta formulação reside no fato dela explicar não apenas a extinção dos dinossauros, como ainda a periodicidade dos processos de extinção em massa; a existência de gigantescas crateras de impacto na face oculta da Lua, em Marte e nos satélites dos gigantes gasosos.

Existindo ou não uma Nêmesis e um ou mais meteoritos dinossauricidas, é interessante especular sobre como seria a Terra atual, caso os dinossauros não se houvessem extinguido. Teriam atingido a racionalidade? E, em caso afirmativo, teriam desenvolvido uma civilização tecnológica? Se o tivessem feito, talvez tivessem conquistado a Lua e colonizado o Sistema Solar há milhões de anos. E, admitindo que tivessem superado os males que hoje afligem a civilização humana, talvez estivessem atualmente disseminados por vastas extensões da periferia da Via Láctea...

LEITURA RECOMENDADA

+ Alvarez, L.W., W. Alvarez, F. Asaro & H. Michel (1980): "Extraterrestrial Cause for the Cretacious-Tertiary Extinction". Science 208, 1095-1108.

+ Bakker, Robert T. (1976): "Dinosaur Renaissance". Scientific American, 232.

+ Bakker, Robert T. (1986): Dinosaurs Heresies: New Theories Unlocking the Mystery of the Dinosaurs and Their Extinctions. Longman Scientific & Technical, Essex, Inglaterra, 481pp.

Um excelente livro introdutório, ilustrado pelo próprio autor.

+ Bonaparte, José F. (1978): El Mesozoico de America del Sur y sus Tetrapodos. Fundación Miguel Lillo, Tucumán, Argentina, 596pp.

Uma das poucas obras a cobrir dinossauros sul-americanos.

+ Czerkas, S. & D. Glut (editores) (1982): Dinosaurs Past and Present. 2 vol. Natural History Museum of Los Angeles County, Los Angeles.

Possuem dezenas de gravuras lindíssimas que, por si só valem à pena. O texto é mais profundo que o da maioria das demais outras obras citadas.

+ Horner, J.R. (1984): "The Nesting Behavior of Dinosaurs". Scientific American, 250.

+ Müller, R.A. (1985): "Evidence for a Solar Companion"; in The Search for Extraterrestrial Life, Recent Developments. Editor: Michael Papagiannis, IAU, Dordrecht.

+ Norman, David (1985): The Illustrated Encyclopedia of Dinosaurs. Crescent Books, New York.

Outro bom livro introdutório, com a vantagem de ser menos parcial do que os de Bakker e Paul, embora as gravuras, ainda que coloridas, sejam inferiores.

+ Paul, Gregory S. (1988): Predatory Dinosaurs of the World: a Complete Illustrated Guide. Simon and Schuster, New York.

Escrito e ilustrado por Paul, seguidor de Bakker, o livro é bastante recomendado para aquele que procura se aprofundar sem chegar a consultar textos técnicos. A classificação do catálogo é, no entanto, demasiadamente pouco ortodoxa.

+ Russel, Dale (1971): "Supernovae and the Extinction of the Dinosaurs". Nature vol. 229, fevereiro.

+ Sepkoski, J.J. (1985): "Some Implications of Mass Extinction for the Evolution of Complex Life"; in Search for Extraterrestrial Life, Recent Developments. Editor: Michael Papagiannis, IAU, Dordrecht.

Gerson Lodi-Ribeiro & Ronaldo Fernandes