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Alternativas da Phantastica Brasiliana

por Gerson Lodi-Ribeiro

Com a aproximação do quinto centenário do Descobrimento do Brasil, dando continuidade a sua política mercadológica oportunista (no bom sentido), a editora Ano-Luz decidiu lançar uma antologia comemorativa de contos fantásticos cujas temáticas se relacionassem de algum modo à história do Brasil. Percebam que falo aqui em "contos fantásticos", porque a princípio meus sócios e eu não sabíamos se os trabalhos que receberíamos seriam de ficção científica; horror; fantasia ou história alternativa. Para ser inteiramente sincero, não sabíamos sequer se os autores brasileiros seriam capazes de usar a história do Brasil como fonte de inspiração para seus contos e noveletas, se receberíamos trabalhos de qualidade em número suficiente para fechar um livro de duzentas e tantas páginas. Para a árdua missão de pilotar esse projeto, cujo título provisório era BR-500, a Ano-Luz designou Carlos Orsi Martinho e eu.

Para nossa grata surpresa, os autores deram conta do recado direitinho e a antologia Phantastica Brasiliana ficou pronta no prazo. Um manuscrito de quase 68.000 palavras, dividido em dez trabalhos de ficção (seis contos e quatro noveletas), apresentação, ensaio introdutório e os biologs dos autores. São oito histórias de autores brasileiros (1) e duas de autores portugueses (2) . Dez histórias que, apostamos, agradarão a gregos e baianos.

Minha maior alegria ao organizar a antologia foi constatar que a exata metade dos dez trabalhos ficcionais constituía-se em histórias alternativas. O aparecimento dessa quantidade expressiva de histórias alternativas pode ser o prenúncio de uma nova tendência no panorama algo estático e anêmico da FCB: a exploração das temáticas históricas em geral e das HÁ em particular. Uma tendência como esta não dependerá, é claro, apenas do relativo sucesso comercial do livro, mas principalmente da reposta positiva do público leitor.

Portanto, é com imenso prazer e a aquiescência tácita do editor do Megalon que farei dessas cinco histórias alternativas o assunto de nosso ensaio de hoje. É claro que, de uma certa forma, estou usando essa coluna como espaço de propaganda gratuita para o novo produto prestes a ser lançado por uma empresa da qual tanto o editor quanto este articulista são sócios. Mas creio que meu engajamento de mais de uma década na divulgação da história alternativa por estas plagas e na tentativa de estimular os autores de FCB à prática do subgênero constituem atenuantes poderosos a quaisquer possíveis acusações de oportunismo barato. Às vozes discordantes, peço que perdoem a empolgação deste velho militante. Isto posto, sigamos em frente.

Há coisa de seis meses, um estudioso americano de história alternativa (3) perguntou-me se os autores brasileiros de H.A. não possuíam um tema nacional favorito, à semelhança da Guerra de Secessão para os autores americanos ou da vitória da Armada de Filipe II para os ingleses. Na época respondi que não. Expliquei que, infelizmente, em termos de história alternativa ainda não possuíamos nada que se assemelhasse a uma preferência nacional. De lá para cá a situação parece ter mudado um pouco, pois duas das cinco histórias alternativas presentes na Phantastica Brasiliana partem de um mesmo ponto de divergência, indicando talvez o advento de uma preferência nacional, os "Impérios Brasileiros Alternativos".

Como seria o Brasil de hoje caso a República não houvesse sido proclamada em 1889 e o país permanecesse até hoje como único império das Américas? A noção de que o Império pudesse sobreviver mais do que uns poucos anos além da data de sua queda em NLT é quase indefensável. Como aprendemos nas aulas de história do 2º grau, a abolição dos escravos fez com que a monarquia perdesse a apoio dos grandes senhores de terra, último sustentáculo do Império. É claro que se o autor situar seu ponto de divergência bem antes de 1889, digamos na década de 1860 ou 1870, e se a trama for bem urdida, pode ser que em termos de plausibilidade a coisa mude de figura.

Contudo, não constitui exatamente um crime gravíssimo deixarmos tais argumentos puristas de lado em prol de uma ou duas histórias convincentes e divertidas. Lembram-se do tal "pacto de suspensão da incredulidade"? Pois bem: o que estou propondo neste caso é que aceitemos o equivalente em termos de história alternativa ao hiperespaço ou às viagens retrotemporais para a FC.

O fato é que tanto o conto "Folha Imperial" quanto a noveleta "Não Mais" exploram a possibilidade da sobrevivência do Império de duas maneiras inteiramente distintas.

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O conto de H.A. "Folha Imperial" de Ataíde Tartari é o único trabalho que não foi escrito especialmente para a Phantastica Brasiliana. Uma versão anterior do mesmo foi publicada no Somnium 65 (Dezembro 1996) (4) . Numa rara fusão harmoniosa de história alternativa e conto humorístico digna dos melhores momentos de AH-Lite de Harry Turtledove, Ataíde nos mostra o que acontece quando a correria cotidiana de um repórter e um fotógrafo da Folha, ambos especializados em fofocas da nobreza imperial, se transforma no dia da sorte grande da dupla, quando flagram o príncipe-herdeiro da coroa brasileira em mais uma de suas aventuras amorosas.

"Folha Imperial" exibe nas entrelinhas uma série de insights políticos e sociais e paralelismos entre personalidades contemporâneas presentes tanto em NLT quanto nessa LTA. O paralelismo é um pecadilho relativamente comum para a maioria dos autores de H.A. Apesar de condenado pelos puristas, trata-se de um vício por vezes quase irresistível.

Em "Folha Imperial" temos o "Conde de Interlagos"; o "Marquês de Santos" e um Primeiro-Ministro todo-poderoso, o "Visconde de Higienópolis"... E enquanto o escândalo sexual do príncipe corre solto lá fora, na redação da Folha Imperial, o editor-chefe, um monarquista ultra-conservador, recebe a visita de uma senadora do PTR, Partido dos Trabalhadores Republicanos, uma agremiação política cujos partidários são alcunhados pejorativamente de "deodoros", numa referência clara ao grande traidor do Império, Deodoro da Fonseca....

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Embora parta do mesmo pressuposto básico de que a monarquia sobreviveu até hoje, ao contrário do que ocorre no conto de Tartari, na noveleta "Não Mais" de Carlos Orsi Martinho o ponto de divergência não reside no fracasso do golpe da Proclamação da República em 1889, mas no envolvimento escuso de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, com Athanasius Kircher, um alquimista europeu misterioso que detém o segredo da imortalidade.

Athanasius assume a tutela do futuro imperador Pedro II e instala em pleno Jardim Botânico Imperial do Rio de Janeiro uma usina para produzir o fluido verde cujos banhos periódicos tornam as pessoas imortais. O alquimista torna imortal não apenas o monarca, a família real e os principais nobres do Império, mas todos aqueles, grandes ou pequenos, brasileiros ou estrangeiros, que sejam de algum modo úteis ao cumprimento de seus desígnios. Pois nessa LTA o Império do Brasil é a maior potência da Terra e Athanasius governa o Império ao controlar o fornecimento do fluido da imortalidade, tendo nas mãos o destino tanto de governantes quanto de governados.

Também as lideranças estrangeiras foram cooptadas à causa da hegemonia brasileira, graças à concessão criteriosa da imortalidade entre suas fileiras. A Guerra do Paraguai foi vencida em apenas dois anos. As monarquias foram restauradas em quase todos os países da Europa. Enquanto isto, na América, o Império do Brasil estendeu-se do México à Patagônia. Os Estados Unidos perderam duas guerras contra o Império. E na única superpotência do mundo atual, o imperador imortal Dom Pedro II ainda reina e a vontade de Athanasius governa o destino da humanidade.

Mas nem tudo são flores nesse Superimpério do Brasil. A escravidão prevalece até hoje de uma forma ainda mais cruel do que a outrora existente no Brasil de NLT. Essa sociedade governada por uma casta de imortais não parece muito disposta a incentivar o progresso tecnológico e os avanços sociais. Além disso, existem sempre umas poucas vozes discordantes que recusam a se deixar calar pela sedução da vida eterna. No passado, foram homens da estatura de Machado de Assis, Euclides da Cunha, Santos Dumont, H.G. Wells e Albert Einstein que, não obstante a tentação suprema, negaram-se peremptoriamente a vender suas almas. No alvorecer do novo milênio é o movimento brasileiro "Não Mais" que empreende uma luta desesperada para obliterar o segredo do fluido verde e destruir a elite de imortais, para salvar o país e o mundo de uma distopia imobilista , desumanizadora e cruel.

Qualquer fã que tenha tido o privilégio de ler o magnífico Anno Dracula (5) (1992) não deixará de notar um certo paralelismo temático entre a noveleta de Martinho e o romance alternativo do inglês Kim Newman. Passado na Inglaterra Vitoriana do final do século XIX, o romance mostra o que teria acontecido se Drácula houvesse vencido o confronto contra o grupo liderado por Van Helsing e Jonathan Harker. O Império Britânico, de longe a potência mais poderosa da Terra, é dominado por uma estirpe de imortais, no caso a nobreza inglesa vampirizada por um Drácula que desposou a Rainha Vitória e tornou-se Lord Protector do Império. Mais ou menos a mesma coisa ocorre em "Não Mais", embora os imortais de Martinho não sejam vampiros. Em ambos os trabalhos há uma revolta de homens e mulheres notáveis que se recusam a compactuar com a nova ordem, mesmo ao preço de abrir mão da imortalidade. Tanto num quanto noutro há uma espécie de sociedade secreta composta por mortais patriotas e abnegados — a Não Mais da noveleta e o Diogenes Club do romance — lutando desesperadamente para reverter a situação ao status vigente antes do advento da imortalidade. Este paralelismo é um tour de force adicional dessa noveleta que se constitui num trabalhos mais interessantes e elaborados já escritos por aquele que é reputado por muitos como o autor brasileiro de horror mais criativo da atualidade.

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"Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança" é um dos contos de história alternativa mais convincentes que li nos últimos tempos. Contudo, a plausibilidade do ponto de divergência em si e da LTA gerada a partir daí não surpreende tanto quando nos lembramos que Carla C. Pereira, uma historiadora por vocação e profissão, é a mesma autora que estreou em 1998 com o pseudofactual alternativo "Se Cortez Houvesse Vencido a Peleja de Cozumel" (publicado na antologia Outras Copas, Outros Mundos, organizada por Marcello Simão Branco pela Ano-Luz).

O ponto de divergência escolhido por Carla situa-se em 1488 num ponto fulcral da história luso-brasileira. Os dois navios de Bartolomeu Dias naufragam ao tentar dobrar o Cabo das Tormentas e Portugal não descobre o Caminho Marítimo para as Índias através da circunavegação da África. Por essa mesma época, Colombo está em Lisboa, sendo cozinhado em banho-maria pelo rei Dom João II. Sem notícias de Dias há muitos meses e à falta de melhor opção, o monarca português acaba decidindo aceitar a proposta ingênua do navegador genovês. E Colombo descobre a América sob bandeira portuguesa, ainda no reinado de Dom João II. Os portugueses iniciam a colonização de Cuba e Lusitânia (Hispaniola em NLT), exploram os litorais da Nova Inglaterra e aportam nas praias do Golfo do México. Década e meia mais tarde, Affonso de Albuquerque, o Grande, avassala (mas não destrói) o riquíssimo Império Asteca, tornando os náuatles prepostos e representantes da Coroa Portuguesa no México. O próprio imperador Montezuma II se "converte" ao Cristianismo.

Enquanto Portugal enriquece com o ouro asteca, sem a válvula de escape da descoberta da América, a Espanha acaba fragmentada numa sangrenta guerra civil entre as nobrezas de origem castelhana e aragonesa, conflito que eclode com a morte da rainha Isabel de Castela em 1505. O ouro impulsiona os portugueses à exploração do Novo Mundo, já batizado de Cabrália. Feitorias e vilas são fundadas tanto na Cabrália do Norte quanto na do Sul, onde se explora o valioso pau-brasil. Descobrir e avassalar o Império Inca é então apenas uma questão de tempo. E com a vassalagem de Huyana Capac a Dom Manuel, o Senhor dos Sete Mares, vem a conquista do Mundo Oceano (Pacífico) e o resgate de um velho sonho, o Caminho Marítimo para as Índias.

Sob o comando de Fernão de Magalhães, os portugueses chegam afinal a Calicute em 1520. Quando o samorim manda torturar e matar o grande navegador português, Dom Manuel explode em fúria e convoca seu comandante mais duro e capaz para empreender a vingança do Império Português, Dom Vasco da Gama.

Esse Vasco da Gama alternativo não é o comandante que na plenitude de seus 38 anos descobriu a Índia em NLT. É um ancião de barbas brancas, mas ainda muito bem disposto, a se confiar na opinião de sua jovem esposa, a princesa asteca Xochiquetzal. Nenhum espanto. Afinal, a Esquadra da Vingança chega a Calicute em 1523, mais ou menos na mesma época em que o Vasco da Gama de NLT lá chegava para assumir o cargo de Vice-Rei.

Mas tudo isto é mero background, ainda que um background e tanto. A história em si é contada do ponto de vista da tal princesa asteca de nome difícil. É através de seus olhos de nobre mexica educada em Lisboa, de sua percepção delicada de mulher e criatura híbrida de duas culturas muito diferentes, que vemos a aliança de seu povo com os portugueses; a política do Império Luso (6) , os primeiros efeitos dos Descobrimentos no Novo e no Velho Mundo, as ações do samorim, a iminência do confronto entre portugueses e indianos e, finalmente, a batalha naval apavorante que explode em plena baía de Calicute.

"Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança" é uma bela realização, tanto do aspecto de construção de um cenário histórico alternativo muito bem embasado numa LTA convincente e plausível, quanto no que se refere a uma história bem contada, de leitura interessante, independentemente do fato de você ser ou não um amante da ficção histórica.

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Como estou adotando o critério de abordar as histórias alternativas na ordem exata em que elas aparecerão na antologia, chegou a vez de minha noveleta, "Capitão Diabo das Gerais".

Ah, o doce deleite, o prazer culpado, inenarrável, mais-que-sexual, de criticar um trabalho de minha própria autoria... É nessas horas que eu gostaria de possuir um pseudônimo secreto também para me auto-elogiar impunemente... Agora, falando sério, em termos éticos absolutos, eu poderia convidar meu co-editor Carlos Orsi Martinho para escrever a análise da minha historinha; ou talvez a Carla C. Pereira que, como eu, também é metida a entender de H.A. Mas, caso o fizesse, onde ficaria o meu prazer culpado? Afinal, não sei se o tal prazer sem culpas existe mas, como diria o Woody Allen, "culpa sem prazer é besteira!" Então, o negócio é relaxar e "aproveitar", tentando manter um mínimo de imparcialidade. Apertem os cintos e vamos lá.

"Capitão Diabo das Gerais" é a quinta noveleta que escrevo na LTA "Três Brasis" (7), embora se insira cronologicamente cerca de sete décadas após o clímax de "A Traição de Palmares" (que ocorre com o reconhecimento da independência de Palmares) e quase um século e meio antes da confronto entre um vampiro e um lobisomem bastante heterodoxos na Londres Vitoriana de "Assessor Para Assuntos Fúnebres". A ação agora se passa na província das Minas Gerais lá pelos idos de 1750. Mais especificamente, no Distrito Defeso do Tijuco, onde a vontade do contratador dos diamantes João Fernandes de Oliveira é a lei em nome del-Rei e onde a mulata Chica da Silva reina inconteste no coração do contratador.

João Fernandes está às voltas com o descaminho e o roubo dos diamantes das lavras do Tijuco. Eles suspeita que os crimes sejam perpetrados por salteadores a mando de Palmares ou de Nova Holanda, respectivamente a única nação independente do continente americano e a mais rica das oito Províncias Unidas — duas forças aliadas em sua inimizade comum a Coroa Portuguesa; dois Estados firmemente estabelecidos no nordeste brasileiro, algumas poucas centenas de léguas a norte das Minas Gerais.

O Capitão Diabo do título é o líder do bando de salteadores que atemoriza o Tijuco. Torna-se claro desde o início que se trata de uma nova identidade do mesmo personagem que protagonizou duas outras noveletas da série.

A Coroa Portuguesa ordena ao contratador que financie a guerrilha dos colonos iorubas que se haviam fixado na província palmarina da Bahia do Norte duas gerações atrás. Os guerrilheiros possuem motivação religiosa, pois ao contrário dos bantos palmarinos, quase todos convertidos ao Cristianismo, os iorubas insistem em se manter fiéis aos cultos de seus ancestrais africanos. Como são os diamantes do Tijuco que financiam o esforço de guerra dos rebeldes, Palmares em represália ao apoio do contratador aos iorubas envia os salteadores para prejudicar ou interromper o fluxo de diamantes para a metrópole. "Capitão Diabo das Gerais" é a história do duelo de astúcias entre um filho-da-noite solitário imbuído da árdua tarefa de comandar um grupo de agentes secretos travestidos de salteadores e um vida-curta dos mais sagazes, mas sempre disposto a dar ouvidos aos conselhos de sua Chica.

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Com quase 15.000 palavras, a noveleta do estreante Roberval Barcellos, "Primeiro de Abril", é de longe o trabalho mais extenso da antologia (8) , quase uma novela de pleno direito. Das cinco histórias alternativas do livro é a que propõe o ponto de divergência mais recente: uma intervenção militar americana no Golpe Militar de 1964 transforma o Brasil quase da noite para o dia num gigantesco Vietnã de 8,5 milhões de quilômetros quadrados; uma nação dividida em dois Estados rivais e castigada por uma guerra longa e sangrenta. "Primeiro de Abril é uma história forte e convincente que, acreditamos, será a de maior impacto da Phantastica Brasiliana. Uma história alternativa bem embasada em fatos de nosso passado recente e que esboça um quadro de uma plausibilidade terrível: o naufrágio da nação brasileira num maremoto político-militar; um país fragmentado por uma guerra civil de proporções continentais.

Boa parte da ação se passa na selva amazônica e o clímax transcorre na cidade do Rio de Janeiro. A história é narrada por um veterano do conflito a um grupo de jovens brasilienses que preparam um trabalho de pesquisa escolar sobre os trinta anos do Contragolpe de 1964. O trabalho de grupo faz com que o narrador, um veterano tanto da Guerra Civil Brasileira quanto da Segunda Guerra Mundial, rememore suas experiências como oficial subalterno servindo num comando de combate na selva sob as ordens de um certo Capitão Carlos Lamarca.

Com exceção de "Primeiro de Abril", todos os trabalhos de história alternativa da antologia fazem-se acompanhar de Linhas Históricas Alternativas — breves resumos dos principais eventos que teriam transcorrido no período que vai do ponto de divergência histórico proposto pelo autor à época em que se passa a ação de cada conto ou noveleta. "Primeiro de Abril" dispensa tal recurso, visto que abrange a maior parte dos grandes acontecimentos que se desenrolaram entre o Contragolpe e a comemoração dos trinta anos desse evento.

Considerando a quantidade de histórias alternativas presentes na Phantastica Brasiliana, julgamos de bom alvitre incluir um ensaio introdutório sobre o assunto para apresentar os conceitos pertinentes às histórias alternativas a um público que, ao contrário dos leitores do Megalon, talvez não esteja familiarizado com noções como "linhas temporais alternativas"; "ponto de divergência"; "passados alternativos"; etc. Para a tarefa convidamos James Rittenhouse, um dos maiores estudiosos mundiais do gênero, editor-chefe do fanzine especializado em história alternativa Point of Divergence e jurado do Sidewise Awards, o Prêmio Hugo das histórias alternativas. Esta é mais uma participação internacional da Phantastica Brasiliana.

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Antes de encerrar o ensaio, gostaria de falar brevemente dos outros cinco contos da Phantastica Brasiliana que não se constituem em histórias alternativas, mas que nem por isso são menos merecedores da atenção dos leitores, visto serem, todos, trabalhos notáveis, cada um a seu modo.

Dois desses contos abordam lendas de nosso folclore. Em "Boto", o autor português Daniel Tércio fala dessa lenda do ponto de vista da fantasia, mas uma fantasia narrada em estilo enxuto e clima extremamente realista, que mostra o desencontro amoroso de um casal em visita a um lugarejo perdido no interior do Pantanal. Já Adriana Simon aborda suas figuras do folclore no conto "Kupe-Dyeb" munida do ferramental e das explicações típicas da FC clássica. Octávio Aragão nos brinda com uma crítica bem-humorada aos excessos da política do "ecologicamente correto" em seu conto curto "Trevo". Roberto de Sousa Causo comparece com "O Salvador da Pátria", um thriller de ficção científica militar tupiniquim, subgênero da FCB no qual ele se constitui no principal cultor. E, last but not least, o cineasta e autor português António de Macedo apresenta em "Sereia dum Mar Sem Fim" uma fantasia científica que explora a temática dos descobrimentos, traçando um paralelo entre a viagem de Pedro Álvares Cabral e a exploração de um estranho reino extradimensional habitado por criaturas etéreas de comportamento por vezes muito humano.

Phantastica Brasiliana deverá ser lançada nos primeiros meses do ano que vem. Estamos confiantes na qualidade dos trabalhos que selecionamos e certos de que agradará a leitores de muitos gostos distintos, sejam esses gregos, troianos ou baianos...

Espero tê-los deixado com água na boca. Até o lançamento!

Gerson Lodi-Ribeiro,

Agosto de 1999.

1. Ataíde Tartari; Carlos Orsi Martinho; Carla C. Pereira; Octávio Aragão; Gerson Lodi-Ribeiro; Roberto de Sousa Causo; Adriana Simon e Roberval Barcellos. Reparem que seis desses oito autores já haviam participado da antologia Outras Copas, Outros Mundos (Ano-Luz, 1998).

2. Daniel Tércio e António de Macedo. A presença desses dois autores portugueses transforma a Phantastica Brasiliana numa antologia lusófona, o primeiro esforço desse tipo desde O Atlântico Tem Duas Margens (Editorial Caminho, 1993). Não podemos esquecer das três antologias bilíngües dos Encontros de Cascais, elaboradas pela Simetria: Na Periferia do Império (1996); Efeitos Secundários (1997) e Fronteiras (1998). Essas antologias comemorativas não foram, no entanto, empreendimentos comerciais no sentido estrito.

3. De fato, Craig Neumeier, historiador profissional e co-autor dos RPG GURPS Alternate Earths (1996) e GURPS Alternate Earths II (2000), ambos pela Steve Jackson Games.

4. Trabalho analisado detalhadamente no ensaio "Alternativas à Brasileira", publicado no Megalon 43 (Janeiro 1997). [Cópias digitais disponíveis aos interessados]

5. Romance alternativo, ou quase, analisado em detalhe no ensaio "Vampiros Alternativos", publicado originalmente no Megalon 40 (Abril 1996) e mais tarde publicado em inglês no fanzine americano de história alternativa Point of Divergence # 2 (Dezembro 1997). [Cópias digitais de ambas as versões disponíveis aos interessados] Anno Dracula possui suas continuações, a citar, Blood Red Baron (1995) (passado à época da Primeira Guerra Mundial) e Judgement of Tears: Anno Dracula 1959 (1998).

Como não poderia deixar de ser, a trilogia alternativa é referida como Anni Draculae.

6. O leitor descobre várias coisas através das memórias da princesa, como, por exemplo, que aquela cena de vingança e da obliteração iminente da bela Calicute representava a repetição em grande escala de uma outra atrocidade, ocorrida anos antes na península de Iucatã, quando o mesmo Vasco da Gama bombardeara e destruíra o vilarejo maia de Cozumel. Cenário, aliás, que a autora revisita indiretamente através do horror presente nas reminiscências da protagonista.

7. O Brasil encontra-se dividido desde o século XVII entre portugueses, bantos de Palmares e a próspera província de Nova Holanda.

As histórias anteriores, pela ordem cronológica desta LTA, são:

"O Vampiro de Nova Holanda" [Somnium 64 (Setembro 1996); O Vampiro de Nova Holanda (Caminho, 1998) e Outros Brasis (1999)];

"A Traição de Palmares" [Megalon 44 (Maio 1997) como "Os Canhões de Palmares"];

"Assessor Para Assuntos Fúnebres" [Megalon 37 (Maio 1996), Outras Histórias... (Caminho, 1997) e Outros Brasis]; e

"Pátrias de Chuteiras" [Outras Copas, Outros Mundos (Ano-Luz, 1998)].

8. Uma situação semelhante a de "Primeiro de Abril" já havia ocorrido em Outras Copas, Outros Mundos, a antologia anterior da nossa editora, quando a noveleta do então estreante Octávio Aragão, "Eu Matei Paolo Rossi", constituiu-se no trabalho mais extenso do livro.