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Elevação de Animais à Racionalidade

Gerson Lodi-Ribeiro.

Um dos temas de grande recorrência na FC "before the Golden Age" foi o processo de criação deliberada de animais inteligentes pela humanidade, a partir de ancestrais irracionais. Adotando um vocábulo "david-briniano", designaremos este processo por "elevação".

H.G. Wells foi um precursor nesta temática, como em muitas outras. Em A Ilha do Dr. Moreau (1896), um médico recluso faz modificações cirúrgicas em animais, elevando-os a uma condição semi-humana. O enredo foi requentado oito décadas mais tarde por Brian Aldiss em A Outra Ilha do Dr. Moreau (1980), com um impacto bem menor. A argumentação de Aldiss é mais sólida que a de Wells. Também, pudera! Oitenta e quatro anos constituem um intervalo de tempo considerável. Se fizermos a devida correção temporal, o romance de Aldiss perderá até no tópico plausibilidade científica.

Já em A Guerra das Salamandras (1936), Karel Capek propõe uma espécie racional de salamandras marinhas gigantes, a Andrias scheuchzeri, descoberta numa pequena ilha do Pacífico Sul. Graças à ganância de uma grande corporação comercial, os animais inteligentes são disseminados pelo mundo dito civilizado, inicialmente como mão-de-obra escrava, mais tarde como equipes militares especializadas em tecnologia marinha e guerra submarina. O resultado é, como se poderia prever, catastrófico para a humanidade.

Na maioria dos enredos, contudo, espécies irracionais já conhecidas são elevadas à sensciência através da intervenção humana. Isto é mostrado tanto no romance Batalha da Eternidade (1971) de A.E. Van Vogt, quanto ao conjunto de contos de Clifford D. Simak que constituem a série City.

No primeiro caso, a própria humanidade é elevada por alienígenas com intenções dúbias, a partir de seu estado evolutivo presente até um estágio caracterizado pela atrofia físico-muscular e pela grande ampliação das capacidades intelectuais e dos poderes mentais. Esta nova humanidade eleva por sua vez centenas de espécies de mamíferos. Todas essas novas estirpes de mamíferos racionais possuem postura bípede, porte tipicamente humanóide e inteligência equivalente grosso modo a dos humanos pré-manipulação.

Como no caso anterior, na série City ocorre um processo de elevação mista. Um pequeno grupo de humanos eleva os cães à racionalidade, concedendo-lhes o dom da fala articulada, mas não a postura ereta ou membros de manipulação. Algum tempo depois, a humanidade abandona a Terra, deixando a nova espécie racional entregue a si própria, contando apenas com a orientação de um robô, Jenkins. Aos poucos, outros robôs se unem ao primeiro no auxílio aos Cães, executando o papel de braços e mãos que faltam àqueles. Assim, os Cães criam sua própria civilização e começam a elevar outras espécies irracionais terrícolas, educando-os com os conceitos e valores de lealdade e respeito à vida típicos da Civilização Canina. O processo de elevação em si não é explicitamente detalhado, mas apenas indicado de modo bastante lírico, caracteristicamente simakiano.

Edmond Hamilton apresenta em O Vale da Criação (1948), lobos, águias, cavalos, tigres e humanos como habitantes de uma região remota. Inicialmente irracionais, estas cinco espécies homeotérmicas são providas de intelecto através de influência alienígena. Das espécies citadas, apenas a humana teria ousado transpor os limites do Vale, para colonizar o mundo exterior.

Os exemplos acima se referem a intervenções intencionais. Mas este não é o único caminho para a elevação. Nos filmes da série O Planeta dos Macacos, os humanos involuntariamente elevam os seus sucessores, nas figuras de chimpanzés, gorilas e orangotangos. As três espécies mais tarde se tornam mestres dos humanos decaídos. Na versão hollywoodiana popularesca, os gorilas racionais, militaristas de ânimo belicoso, se deliciam em caçadas brutais aos humanos selvagens.

Outro exemplo de discípulo superando o mestre é encontrado em "A Boy and His Dog" (1969), impressionante novela de Harlan Ellison, na qual um cão telepata, criado em laboratórios do exército norte-americano, é tutor de um adolescente agressivo numa Terra Pós-Holocausto. O filme, com o mesmo título, vale à pena ser assistido e revisto (Existe em fita de vídeo selada, já tendo sido inclusive exibido em sessão do extinto Grupo de Vídeo do CLFC-RJ). Segundo os críticos, trata-se de um dos poucos casos em que a película superou a obra literária que lhe deu origem. Depois de assistir "A Boy and His Dog", o fã de FC costuma se perguntar se o título "A Dog and Its Boy" não seria mais apropriado.

Resta falar sobre aquele que cunhou o conceito de elevação no sentido aqui empregado. Ninguém tratou este tema tão extensivamente e tão bem, tanto em termos científicos como de enredo, quanto David Brin em sua trilogia Earthclan, passada no universo ficcional dos Progenitores. A saga se divide em Sundiver (1980), Startide Rising [Maré Alta Estelar] (1983) e Uplift War [Guerra da Elevação] (1987).

No primeiro romance, os protagonistas são os próprios humanos e a história se passa no Sistema Solar. No segundo e terceiro trabalhos da trilogia, os personagens principais são cidadãos terrágenos das espécies Tursiops amicus (neogolfinhos) e Pan argonostes (neochimpanzés), respectivamente. Ambas elevadas pelos humanos.

No background vemos uma Via Láctea repleta de espécies racionais elevadas por outras espécies mais antigas, sucessivamente, até os legendários Progenitores. Neste cenário, os humanos são considerados párias. Afinal, não só nos atrevemos a nos elevar sem o auxílio de uma espécie patrona, como, pior ainda, ousamos elevar outras espécies como golfinhos, chimpanzés e cães, obrigando dessa forma a comunidade galáctica a nos conceder o status de espécie patrona. Em Uplift War há ainda a elevação dos gorilas, iniciada por humanos e neochimpanzés, e tomada a cargo pelos Thennanin, alienígenas anteriormente hostis à humanidade e à sua prole.