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Trabalhos: Trabalho de Aprendiz

Grémio Fénix, Lisboa, Abril de 1998

O trabalho do grau de Aprendiz é compreendido por quatro partes que cobrem o nome simbólico, um dos símbolos do grau, as impressões acerca da Iniciação e da Maçonaria em geral. Este trabalho foi apresentado na R.·. L.·. Fenix, nº 493 ao Oriente de Lisboa, Grande Oriente Lusitano, no dia 3 de Abril de 1998. Nesse mesmo dia foi decidido que o mesmo trabalho seria incluído na página do Grémio Fenix.

Nome Simbólico: Ernesto

Este nome simbólico foi obviamente inspirado no primeiro nome de Che Guevara, o médico/guerrilheiro argentino nascido em 1928 e assassinado em 1967 na Bolívia. Ernesto Guevara de la Serna foi um homem com alguns dos principais ingredientes que compõem um herói: irreverente, apaixonado, com uma vida agitada e arriscada, bonito, e morto ainda jovem. Che Guevara representa o espírito de sacrifício por um ideal colectivo, representa a revolta contra a opressão, representa, enfim, o espírito sempre jovem, sempre negando a estabilidade, porque essa leva à estagnação, sempre lutando pela mudança das condições de vida e pela liberdade de escolher essa mudança, isto é, pela liberdade de poder construir um futuro melhor.

Foi desde cedo uma criança com graves problemas de saúde, nomeadamente a asma que não o largou desde os dois anos de idade até aos seus últimos dias nas selvas da Bolívia. Criança frágil, acabou por se tornar num jovem rebelde. Em 1952 faz uma viagem de moto por vários países da América latina, viagem essa que o iria marcar profundamente por ver com os seus próprios olhos a dimensão dos contrastes sociais. Passa entre 1952 e 1953 por países como o Perú, Bolívia, Chile, Panamá, Costa Rica, Equador e Guatemala. Aí, depois do golpe de estado que depôs Jacobo Arbenz, refugia-se na embaixada da Argentina e decide nunca mais voltar à sua terra natal. Não é mais o "médico popular" mas o revolucionário político. Segue para o México onde acaba por conhecer os cubanos que assaltaram o quartel Moncada, liderados por Fidel Castro. Decide acompanhá-los num desembarque em Cuba para tentar depôr Batista. É ele que entra em Santa Clara em 1 de Janeiro de 1959, cidade onde agora repousam os seus restos, marcando essa data o final da ditadura de Batista. De então a 1964 ocupa uma série de cargos públicos, sendo o mais conhecido o de Presidente do Banco Nacional de Cuba devido à anedota que ronda a sua nomeação. Em 1965 dirige-se para o Congo Belga onde pretende repetir a revolução cubana. Começa aí o seu desejo de combater as ditaduras e a influência do imperialismo em qualquer parte do mundo. É com esse espírito que em finais de 1966 se dirige para a Bolívia. É aí que acaba por morrer às mãos de comandos bolivianos treinados pela CIA.

Claro que também se pode lembrar que Che Guevara foi o condutor de julgamentos sumários nos primeiros meses de 1959 que levaram à execução de dezenas de antigos torcionários do regime de Batista. Ainda antes, na Sierra Maestra, escrevia no seu diário a justificação para a execução dos desertores e traidores, sendo essa passagem muito confusa, dando a ideia de que o autor não estaria completamente convencido dos seus argumentos. Che Guevara, como todos os homens, não era perfeito. Como poucos, no entanto, estava pefeitamente ciente da sua imperfeição.

Ernesto apenas por essas imperfeições, por ser um nome mais livre e isento de preconceitos e por ser também mais simples, humilde e ter oportunidade para crescer. É um nome parcialmente construído numa memória para ter oportunidade de se construir na totalidade. Ernesto pela irreverência e pela inocência, pela vontade de lutar contra as injustiças, de lutar pela mudança, pela frontalidade, pelo profundo idealismo, pela diversidade, pela fraternidade e pelo profundo internacionalismo.

De todas as citações de Che Guevara a que melhor recordo é a que revela o seu lado mais frio e o mais humano simultaneamente, o seu lado mais radical e o mais tolerante, o seu lado mais negro e o mais luminoso:

"Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás."

Mas há uma outra que revela o companheirismo, a solidariedade e a fraternidade:

"Se tremes de indignação perante uma injustiça no mundo, então somos companheiros."

Símbolo: A Pedra Bruta

Escolhi este símbolo porque é aquele que, a meu ver, melhor representa o estado do Aprendiz.

A Pedra Bruta é o símbolo das imperfeições do espírito que o maçon deve procurar corrigir. Não porque se menospreze, considerando-se imperfeito, mas porque ambiciona a uma perfeição. Essa perfeição não é apenas a Pedra Polida mas também a participação dessa pedra na construção do Templo.

A Pedra Bruta pode ser comparada à "Rocha Mãe", termo que designa do ponto de vista pedológico, a rocha bruta que serve de base para a formação do solo. A "Rocha Mãe", por virtude de vários tipos de acções, vai se fragmentando em pedaços toscos mais pequenos, que se vão modificando, refinando e polindo até que pedaço a pedaço possam constituir um solo fértil onde germinem as sementes.

A Pedra Bruta é o objecto do trabalho inicial de qualquer construção. Cada pedra é única e liberta-se da sua forma tosca através de um árduo trabalho de aperfeiçoamento, polindo as suas faces, alisando as suas arestas, para que possa ser uma das peças do edifício. Esse trabalho de aperfeiçoamento não dilui a sua individualidade, pois consoante a matéria que a constitui terá um papel diferente no edifício construído.

Também há pedras de diferentes materiais e o trabalhar da Pedra Bruta também significa aprender a conjugar os diferentes tipos de materiais no verbo "construir".

A superfície da Pedra Bruta é rugosa e áspera. A Luz, ao incidir numa superfície deste tipo é absorvida, assim como o Aprendiz ainda não reflecte a Luz que recebe da Maçonaria. Apenas quando a pedra bruta é trabalhada, transformando-se em Pedra Polida, as suas faces lisas passam a reflectir a Luz que nela incide.

Assim, a Pedra bruta ao ser trabalhada adquire Força por se poder encaixar com outras, Beleza pelo seu equilíbrio de formas e Sabedoria porque ao reflectir a Luz torna-se ela própria uma forma de Luz transmitida.

A Iniciação

No dia 14 de Julho de 1997, uma segunda-feira, o meu proponente comunica-me (às 14 horas) que seria nessa noite. Ironia do destino, a data significava ela própria a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade, e as minhas provas iriam reafirmá-lo precisamente 208 anos depois.

Era um dia complicado, com reuniões e apresentações. Não iria ter tempo para jantar. O tempo também não ajudava (uma das maiores trovoadas de que me recordo de ver em Lisboa). No entanto, apesar de tanto stress, eu estava sereno. E quanto mais me aproximava do Palácio Maçónico mais serenava.

Ao entrar fui para uma primeira sala onde uma hora pareceu uma eternidade. Daí para a Câmara das Reflexões segui vendado. O procedimento parecia-me natural, o espaço e a decoração pareceram-me o que imaginara do que tinha lido. Mas a experiência é inalcançável para quem não a tenha vivido. O tempo e o espaço sofreram a partir daquele momento uma distorção tal que nem fome, nem necessidades fisiológicas, nem a desorientação por falta de referências espaciais afastavam a minha mente da vivência do momento em si. Na Câmara das Reflexões o tempo e o espaço ficaram para trás e o stress desapareceu. Depois de responder a um pequeno questionário fui então levado, vendado, para o templo. Depois de entrar, as únicas sensações a que tinha acesso eram o cheiro a parafina e o som das vozes que me interrogavam. Não me lembro das questões porque não reflecti as respostas, respondi o que pensava naquele preciso momento. As três viagens foram feitas, intercaladas por interrogatórios. Em cada uma fui amadurecendo a própria experiência que estava a viver. Penso que voltei a ter consciência do tempo após a terceira viagem, como se tivesse voltado a aprender essa dimensão.

Depois de ter sido retirado do Templo, fiquei à espera... sim, agora uma espera uma vez que o tempo já existia.

Uma espera quase interminável.

Depois levaram-me de novo ao templo, e nele entrei pela última vez como profano.

A Luz... A Luz...
A Luz...

É um momento que fica impresso na memória aliado a uma enorme emoção. É o despertar, é o Big-Bang, é o nascimento, é a saída de uma caverna para a luz do dia, é tudo isto simultaneamente e mais ainda.

É sem dúvida muito difícil exprimir o que se sente nesse momento, e já perdi a conta a quantas vezes escrevi e apaguei esta parte do texto.

Mal ainda consigo ver e reparo na visão impressionante dos Irmãos todos de espadas apontadas a mim.

A pouco e pouco os olhos habituam-se à iluminação, o corpo habitua-se ao Templo e o espírito habitua-se à Loja. O juramento e a entrega dos paramentos de Aprendiz formalizam a integração na Loja. Pela primeira vez senti-me Maçon. Mas o tríplice abraço fraternal dado primeiro pelo Venerável e depois pela totalidade dos Irmãos traz uma nova percepção. O espaço e o tempo são finalmente unidos a uma nova dimensão: a Fraternidade. E esta nova dimensão apenas é compreensível para um Maçon. Não é a fraternidade que se diz de ânimo leve. É uma Fraternidade mais profunda, forte, intensa e ao mesmo tempo terna.

Sim, já tinha lido textos acerca da Iniciação, várias vezes até... mas como comparar tal leitura com a experiência? Por muitas vezes que se relate esta experiência, apenas ao Iniciado é dado a compreender o que é vivê-la. E mesmo assim cada Irmão vive esse momento de uma forma muito própria. A minha iniciação será recordada até ao final dos meus dias com uma intensidade crescente. Mas penso que por muito que a relate nunca conseguirei transmitir o que de facto senti naquele momento e ainda sinto ao recordá-lo.

A Maçonaria

No início comecei a interessar-me pela Maçonaria pelo seu simbolismo. Não pela essência mas pela estética. Ao procurar saber mais acerca desse simbolismo deparei-me com a sua História e como ela se liga profundamente aos avanços da Humanidade. Ao procurar saber ainda mais sobre essa rica História comecei a perceber de facto o que significava a Ordem Maçónica. Ou pelo menos assim o pensava.

Quando tive as primeiras entrevistas houve algo que me disseram que de facto me surpreendeu. Disseram-me que o sentimento fraternal entre os Maçons era mesmo muito forte. Que não era apenas uma convenção o tratamento por Irmão. Disseram-me que apenas após a Iniciação o iria compreender. Confesso que fiquei um pouco céptico pois pensava que já tinha essa sensação. Quão enganado estava.

Lembro-me que nos dias que antecederam a primeira sessão que tive após a Iniciação fiquei um pouco ansioso. Tinha saudades dos meus Irmãos.

Com o passar do tempo comecei a assistir à apresentação de trabalhos em Loja, e apesar de me terem falado da qualidade destes e da frontalidade com que eram discutidos e criticados, nunca supus que a minha Loja elevasse tão alto essa fasquia. Penso que a diversidade de opiniões contribui para a elevada qualidade dos trabalhos, e nesse aspecto a R.·. L.·. Fenix é um exemplo de como a heterogeneidade fomenta a qualidade. Infelizmente apercebi-me no Congresso Maçónico que este exemplo não corresponde à generalidade das Lojas. Havia muitas preocupações expressas nas pranchas apresentadas que nunca me teriam ocorrido porque simplesmente não existiam na minha Loja. Diziam que não havia trabalho de pesquisa, que para além do ritual pouco mais faziam... e mesmo esse tinham algumas dúvidas em relação ao rigor do seu cumprimento. Talvez ainda seja muito novo, talvez seja muito ingénuo. De qualquer modo nenhuma dessas preocupações me atinge, e isso devo-o à minha Loja e aos meus Irmãos.

Um outro aspecto que me surpreendeu foi a capacidade de abertura dos meus Irmãos a novas ideias. Não só para as aceitar, mas também para as discutir, desenvolver e divulgar. Confesso que esperava alguma abertura, mas nunca imaginei que houvesse uma tamanha capacidade de aceitação de ideias tão novas.

Num momento em que a sociedade atravessa uma mudança radical tenho a certeza de que o espírito aberto da Maçonaria que eu conheço contribuirá de forma importante para a humanização dessas mesmas mudanças.

Antes de ser iniciado pensei como é que a Maçonaria poderia afectar a minha individualidade. Hoje compreendo que a heterogeneidade e o respeito pelo indivíduo enriquecem a nossa Loja e simultaneamente a mantém mais coesa. É por sermos tão diferentes que pessoalmente nos vamos cultivando mais e é por nos reconhecermos como tão semelhantes que nos unimos em torno do mesmo trabalho.

Não tenho dúvidas de que a minha relação com a Maçonaria se vai estreitar com o tempo. Afinal, ainda agora estou a começar.

Nota: a fotografia aqui apresentada está presente no site "La Página de Ernesto Che Guevara". A fotografia é da autoria do cubano Alberto Korda e foi tirada em 5 de Março de 1960.