TERESA CANTA FADOS

António Chainho lança o álbum "A Guitarra e outras mulheres", com a participação de grandes nomes da música popular

Artigos e opiniões dos fãs sobre o álbum de Chainho e a participação de Teresa Salgueiro

TERESA SALGUEIRO - A VOZ QUE NOS CHAMA

Teresa Salgueiro, a voz dos Madredeus, a figura que facilmente aprendemos a amar e a divinizar, participou recentemente num interessantíssimo álbum de António Chainho, um dos grandes mestres da guitarra portuguesa, intitulado «A Guitarra e Outras Mulheres», álbum que pretende renovar o fado, apresentando-o com sonoridades nunca antes experimentadas. Será certamente benéfico para o fado este projecto implementado por Chainho, na verdade já o está a ser, a julgar pelas críticas altamente favoráveis que tem recebido e pela grande receptividade que tem alcançado junto do público.
Como já foi referido, Teresa Salgueiro participou neste projecto inovador, contribuindo com todo o seu brilhantismo para o enriquecimento deste trabalho de Chainho. Teresa interpreta dois dos doze temas que compõem «A Guitarra e Outras Mulheres». E que dizer destas duas brilhantes interpretações? Um mar de palavras não chegaria para descrever tudo o que se pode sentir quando se escuta a voz abençoada e magistral de Teresa entoar «A Sombra (Fado Nocturno)» e «Fado da Boa Sina». A sua voz de uma transparência irrepetível, é capaz de nos transportar para longe, para bem longe, fazendo-nos atravessar entre duas melodias o dia e a noite.
«Fado da Boa Sina» é como um dia de sol, um dia pleno de luz e claridade, capaz de nos alegrar, capaz de nos fazer voar, capaz de nos fazer navegar as areias do deserto. É como o olhar de uma criança feliz. Em «A Sombra (Fado Nocturno)» Teresa canta a noite, evoca a saudade, a tristeza, fazendo-nos sentir o outro lado da vida, o lado que muitos tentam ignorar, enganando-se a si próprios, como se o caminho para a felicidade, o caminho para o paraíso, fosse conquistado pela recusa da tristeza, da saudade, da nostalgia, da noite, da sombra.
Num relance, esta alma sagrada chamada Teresa Salgueiro, esta voz do mar e da terra, da alegria e da tristeza, do dia e da noite, faz-nos desvendar os recantos da vida, possibilitando-nos o encontro entre o coração e a alma, uma reunião íntima comandada pelas emoções.
Ao cantar «A Sombra (Fado Nocturno)» e «Fado da Boa Sina», ambos os temas com letra de Rui Machado e música de António Chainho, Teresa aponta-nos o caminho do fado, faz-nos descobrir com a sua voz melodiosa o rumo certo do incerto, conduz-nos através do labirinto das nossas emoções, com a simplicidade que sempre nos habituou e que transparece em todos os projectos em que participa. Só ela o consegue fazer, Teresa Salgueiro, Maria Teresa Salgueiro, a voz dos Madredeus, do fado, de Portugal, do Mundo... a voz que nos chama e nos fala ao coração. Obrigado Teresa!

Sérgio Freitas
Abril 1999

 

António Chainho

António Chainho, mestre da guitarra portuguesa

O espírito do fado

O espírito do fado
Vai ser interessante observar como os incondicionais da ortodoxia vão receber este disco magnífico

ASSOCIA-SE muitas vezes ao mundo do fado a ideia de um circuito fechado sobre si mesmo com uma tenaz resistência à inovação ou à mais ligeira introdução de elementos que interfiram com os cânones da tradição. E a verdade é que há, de facto, muito boas razões para que esse universo seja encarado dessa forma: para não ir mais longe, Marceneiro, no início, não foi propriamente bem acolhido, e, mesmo Amália, quando começou a cantar as composições de Alan Oulman, não deixou de ser objecto das críticas que a acusavam de «descaracterizar» o fado.

Vai ser interessante observar a forma como os incondicionais da ortodoxia vão receber este magnífico disco do guitarrista António Chainho, acompanhado de seis vozes femininas que, na sua maioria, não descendem de qualquer «legitimidade fadista» por eles aprovada. E, já agora também, tentar verificar quantos estarão receptivos à sábia sugestão de Rui Vieira Nery (formulada durante a apresentação pública do álbum no Palácio de Fronteira), segundo a qual, perante música desta dimensão, será, evidentemente, sensato não perder tempo a discutir se se trata ou não de fado.

Uma coisa é definitivamente certa: em A Guitarra e Outras Mulheres - do título à atmosfera profunda de todos os temas - paira mil vezes mais o espírito do fado autêntico do que na maioria dos locais onde, para mero consumo turístico, se serve uma música com o mesmo nome. E, se possível, com matéria escandalosa adicional bastante mais explosiva: não só as vozes das portuguesas Teresa Salgueiro, Filipa Pais, Marta Dias e Sofia Varela e das brasileiras Elba Ramalho e Nina Miranda não apresentam o «pedigree» que os fundamentalistas habitualmente reclamam como, para a realização do disco, foi convocado um destacamento de músicos conotados com a nata da vanguarda «downtown» de Nova Iorque e adjacências. A saber: Greg Cohen (da tribo de Tom Waits e Laurie Anderson mas também ouvido ao lado de Carlinhos Brown, Arto Lindsay, David Byrne, Dagmar Krause, Caetano Veloso, Elvis Costello, Randy Newman, Tricky, Bill Frisell ou Lou Reed), responsável pelos arranjos de cordas e metais, acompanhado pelo violino de Eyvind Kang (conferir com a seita de John Zorn), por Peter Scherer (é favor cruzar as referências anteriores) em «mellotron» e «optigon», Vinícius Cantuária (em guitarra de sete cordas e percussão), Pamelia Stickney (theremin), Charlie Giordano (acordeão baixo), Shawn Pelton (bateria) e um trio de sopros constituído por Ken Peplowski (clarinete), Marty Ehrlich (clarinete baixo) e Joel Helleny (trombone).

É realmente importante dizer que qualquer uma destas vozes femininas - ao lado da presença emblemática da guitarra de Lisboa e das composições de António Chainho - faz tanto pela sobrevivência e vitalidade da tradição fadista quanto o fizeram Marceneiro, Amália, Teresa de Noronha, Carlos Ramos e Lucília do Carmo ou o fazem, hoje, Camané e o guitarrista Ricardo Rocha. Não é imprescindível ter vivido nas vielas de Alfama ou da Mouraria para se encontrar uma afinidade com o espírito do fado e a verdade é que escutar Teresa Salgueiro cantando «Sombra e Nada Mais» e «Fado da Boa Sina» faz apetecer que ela abandone de uma vez por todas a cerimoniosa água-de-rosas-de-salão dos Madredeus. É só um exemplo. Porque, para além disso, a deliciosa nostalgia retro de Filipa Pais em «Fado da Desistência» (sobre um brilhante texto enraizadamente fadista de Hélia Correia), a irónica interpretação de Marta Dias no «Fadinho Simples» (com perfeitíssimo contraponto na superior inteligência do arranjo) ou a rigorosa obediência às origens de Sofia Varela em «Tenho Ruas no Meu Peito» demonstram com clareza como, independentemente das eternas querelas sobre a maior ou menor «autenticidade» do fado-fado sobre o fado-canção, este é, indiscutivelmente, um dos lugares onde, actualmente, o fado persiste e se renova. E, de caminho, não será também menos curioso averiguar os caminhos para onde conduzem a sensualidade tropical de Elba Ramalho em «Juntei-me à Voz Verdadeira» ou a inesperada aproximação à morna de Nina Miranda que, dos Smoke City - guiada pelo violino de Eyvind Kang e com texto interpolado em inglês -, com «Nossa Música», aporta por milagre às margens de Cabo Verde.

Se do próprio Chainho se haveria naturalmente de esperar o ecléctico virtuosismo com alma que criou (e ele está absolutamente presente em «Percursos», «Guitarra sem Fronteiras», «Valsinha Mandada», «Notas Marítimas» e «Improviso em Si Menor»), a grande notícia é a extraordinária empatia encontrada entre as suas composições e as participações da brigada nova-iorquina, como se, desde sempre, tivessem coexistido lado a lado. Os arranjos limitam-se, discretamente, a sublinhar e enriquecer de outros sentidos melodias e textos (dir-se-ia que António Chainho converteu os músicos norte-americanos à sedução do fado), tanto evocam outras eras como introduzem dissonâncias subliminares, e o resultado final acaba por ser uma daquelas contribuições decisivas que, como os discos dos Gaiteiros de Lisboa, de O Ó Que Som Tem, de Camané ou de Amélia Muge, inventam hoje um novo vocabulário para a música de raiz portuguesa.

Por intervenção providencial do produtor Bruce Swedien, fala-se já na possibilidade da candidatura de A Guitarra e Outras Mulheres a um Grammy. Que seria inteiramente justo e apropriado, não fosse a proverbial tendência desse prémio para galardoar obras menores e de consumo fácil...

 

JOÃO LISBOA

JORNAL EXPRESSO 05.12.98

 

O texto a seguir foi publicado recentemente no "mailing list" oficial do Madredeus, e aqui o reproduzimos em sua forma original. O texto é uma apaixonada leitura de "A SOMBRA", um dos fados gravados por Teresa Salgueiro em "A Guitarra e outras mulheres". Em breve publicaremos sua tradução para o português.

Teresa Salgueiro

A personal view of A Sombra (Fado nocturno)....

A tense emotion in the opening of the rough plastic from that blu container, adorned by objects from the living Portugal. That moments in which you would like to accelerate the events to arrive quickly to the emotion that you foresee, but the same emotion that you will have impede you to do that, altering your movements, your thoughts, your words.
A trembling hand not mine insert the sliver-blue music object in the cold and insensitive jaws of the stereo.
The music unveil, with few notes...
The guitar, the strings do arpeggios dancing on the warm notes of the brasses. The melody, graceful and malicious woman, still hides, falsely shy, between the fingers of the famous Antonio, leaving visible to our ears that centimeters of sonorous skin that always feed the morbid will to possess, to possess music, to possess its emotion.
The esposition of the theme starts again and the melody grant its voice, as from behind a curtain. An unknown instrument sings with woman voice, as violin or viola, the fantastic and oneiric melody, whispering it as we whisper the lullaby to a baby. It is a melody with no words, a sweet singing of a woman lost in her perfumed privacy. And this voice pour in the mind the scents of a woman, her room, the mirror, accomplice of beauty and casket of her glances. It is a perfumed voice, a woman's voice.
The exposition of the theme starts again and with it the woman appear from behind the curtain, showing her face and granting us the strenght of her word. Her name is Teresa, beautiful and sorrowful, but serene and titanical. She shows herself in that way, in her face and in her sad and calm gestures that move the air of our room with the same flowing of the music. Her voice appear, the true one, the one sung to the man and not to the baby, the voice ask, scream the pain and, with it, the love.

Se a noite escura demora
Cativa dentro do peito
Pressinto quando me deito
A voz de alguém
Que hoje não vem
E mora em mim a toda a hora

If the dark night delays
closed inside my chest
I feel when I went to bed
the voice of someone
that won't come tonight
and that lives in me in every moment

The singing calm itself and the whisper returns... the woman, that sang to us, now close itself in the prayer to her heart. The woman cries... but cries also for the beauty of her love, because every tears is also of joy.

Falando grave e escondida
Por entre as coisas reais
Suspende a força da vida
E não é ninguém: ah, não é ninguém
Somente sombra e nada mais

Speaking low and hidden
among the real things
it suspend the force of life
and it is nobody; ah, it is nobody
Only shadow and nothing more

The woman seem to desist, bend by her pain. She doesn't sings anymore. She is on the bed, the head between the hands, thinking about who's not there, about the one for whom she painted herself of the colours of the sky. She saw him in the mirror, his hand present in her hair, his voice in the whispers of the objects.
But he is not there, he won't come, far away he lives, thinks and dreams. Only vane traces of him as words and memories of past times. The woman cries and lonely cries, while her heart push in its movement the tears to her eyes making them flow on the face in wet strings that love would have painted of rainbow. Now, that strings plays sorrowful notes sustaining the woman in her fight against desperation.
The woman, silent, start whispering again, almost interrupted by the tears and sobs. But the woman sings again. It is hope that moves her, that sustains her, that rises her face and that makes her stand up, proud and titanical 'cause of the pain already felt.

Porém a voz que se ouvia
Morre com a noite no cais
E o sol agora me alumia

But the voice that was heard
It dies with the night in the street
and the sun now shines on me.

The woman now has risen, see the sun entering, shy but already warm, from a hole in the window and she has the courage to open that window that for so many nights closed her in her pain for longing. She opens that window and leave the sun to heal the wounds infected by desperation. In that sun is saudade.
At the window, looking at the world enlightened of light, of the light of the love of her lover, she feels hope, return, future. With the light the sounds, the strings and the guitar calmly retire in their nocturnal world of melody, giving a warm and partaking goodbye to the woman that they accompanied that night.

(A Sombra is a song from the latest album of Antonio Chainho, called "A guitarra e outras mulheres". Teresa Salgueiro sings in that song. The lyrics are from Rui Machado, husband of the singer)

Corvinus - Itália



Meus sinceros agradecimentos a Sérgio Freitas, que gentilmente enviou o artigo do jornal EXPRESSO para publicação nesta página, assim como escreveu suas impressões sobre o álbum de António Chainho com exclusividade para o MADREDEUS BRASIL. Obrigado, Sérgio, de coração!

I would like also to thank my dear friend Corvinus for this remarkable article about Teresa and "A SOMBRA"... He is truly a great writer and a quite sensitive person. I would dare to say that he is the no. 1 fan of Madredeus in the world! Thank you very much indeed!