Versão
da Revista Pop Rock:
Novos ares tomaram
conta do país no início da década de
80. Só se falava na abertura politíca a
liberdade parecia ter chegado para ficar.
Ainda se comemoravam o fim do ato
inconstitucional número cinco e a
sanção da anistia no final da década
passada. Um aconteimento trágico,
porém, veio abalar o processo de
democratização do país. No dia trinta
de abril de 1981, duas bombas explodiram
dentro de um carro no estacionamento do
Riocentro (RJ), durante um show promovido
pelo Centro Brasil Democrático, apoiado
pelo pelo Partido Comunista Brasileiro.
Foi o mais grave em uma sequencia de
ataques, até então, dirigidos a bancas
de jornal que vendiam publicações de
esquerda. Ainda assim haviam mais espaço
para quem quisesse mostrar suas idéias,.
A censura permanencia, mas não era tão
pessada. Pelo menos era o que os
roqueiros que fundavam suas bandas no
underground, sonhando em expor ao
público suas idéias contestadoras. Aos
poucos, o rock deixava de engatinhar e se
apoiava nas próprias pernas. Era preciso
dar um fim a discriminação sofrida
pelos roqueiros dos anos 70 e criar uma
alternativa para os monstros sagradas da
MPB (Caetano Veloso, Chico Buarqua, etc.)
E para as cantoras (Simmone, Maria
Betânia, etc.) Que dominavam a
programações das rádios.Antes da
explosão, porém, havia mais alguns
caminhos a serem percorridos. Com apenas
dois anos de atraso, o movimento punk
havia chegado a São Paulo em 1997. Mas
no início, resumia-se a pequenas gangues
de adolecentes que imitavam a roupa e as
atitudes dos punks ingleses, mas não a
música. Na Inglaterra, os jovens haviam
começado a exibir seu descontentamento
com os dinossauros do rock progressivo em
1975. Eles queriam uma música que
retetasse seu dia-a-dia e que pudesse ser
tocada por qualquer um - e não por
instrumentais virtuosos. Resultado o punk
music, um rock de três acordes, rápido,
cru e agressivo. Grupos como Sex
Pistols e The Clash serviriam
de inspiração para as primeiras bandas
punks brasileiras que pipocavam em São
Paulo e Brasília nos idos de 1978. Tudo
ainda acontecia, porém, no underground,
onde os grupos como AI-5, Lixomania
ou Restos de Nada apresentavam-se
para os iniciados. Em 1982, o público,
finalmente, tomaria conhecimento da nova
tendência. Primeiro com o lançmento do
primeiro disco de punk do brasileiro: Grito
Suburbano, que reuniria: Os
Inocentes, Cólera e Olho
Seco. Depois, Com a realização do
festival O Começo Do Fim Do Mundo,
o primeiro grande evento de punk
realizado no Brasil. O acontecimento, que
terminou em confronto com a polícia,
teve ampla cobertura da imprensa. Em
manifesto aberto ao público, os punks
declararam: Nosso movimento
surgiu numa época de crise e desemprego
com tal força que logo se espalhou pelo
mundo, e cada um, á sua realidade,
adotou esse tipo de protesto, punk
..., dizia o folheto. Clemente
Tadeu, o vocalista de Os Inocentes,
era mais direto: Nós estamos aqui
para revolucionar a música popular
brasileira, pintar de negro a asa branca,
atrasar o trem daz onze, pisar sobre as
flores do Geraldo Vandré e fazer da
Amélia uma mulher qualquer. Não
seria fácil, porém. O caso de Os
Inocentes é exemplar. Apesar de term
fundado o grupo em 1981, Clemente
Tadeu ( guitarra e vocal ), Ronaldo
Passos ( guitarra ), André
Parlato ( baixo ) e Tonhão
Parlato ( bateria ) só conseguiram
gravar seu primeiro disco em 1986. Pânico
em São Paulo, lançado pela WEA,
mantinha a energia do grupo, que contava
com a produção de Branco Mello, dos
Titãs, e Pena Schimidt. Daí para frente
o grupo teria uma carreira estável, com
mais cinco discos lançados por
gravadoras grandes. O mesmo não se pode
dizer de outros grupos paulistas da mesma
geração. O Cólera, um dos mais
representativos do movimento, gravaria em
1985 ( Tente Mudar o Mundo ), mas
ainda de maneira independente. Já o Olho
Seco lançaria discos apenas
esporadicamente - seu último trabalho é
Havera Futuro?, gravado no ano
passado. A influência dos grupos
paulistas, porém, ficaria para sempre em
grupos como Ira ( que fez seu primeiro
show em um festival de punk, na PUC de
Sãp Paulo, em 1981 ), RPM ( seu
guitarrista Fernando Deluqui, passou pela
banda de punk Ignoze ), Legião Urbana (
herdeira dos punks de Brasília ou
Titãs, o grupo que incorporou a
influência punk em suas música. A
origem era outra, mas os ideais os mesmo.
Também no início dos anos 80, um bando
de rapazes de classe média começou a se
reunir em bandas. Tinham formação
universitária e estavam mais ligados a
MPB do que ao rock. O que os unia não
era o conteúdo, mas a forma: todos
gravaram de maneira independente, longe
das grndes gravadoras. Realizavam, assim,
um dso ideais punks mais importantes: o do
yourself, ou, traduzindo faça
você mesmo.O selo, no caso,
era o Lira Paulista, mesmo nome do lugar
onde a maioria das bandas se apresentavam
- entre eles, Arrigo Barnabé, Sabor de
Veneno, Lingua e Banda Performática ( de
onde sairam dois integrantes dso Titãs,
Aranaldo Antunes e Paulo Miklos ). Com a
sucessão de acontecimentos desagradaveis
com os punks, como os confrontos com a
policia e com a volta da tetra entre as
gangues, o punk perdeu a sua força.
Poucas bandas conseguiram bsobreviver a
todos esses acontecimentos. Mas um dia os
punks sonham que aconteça uma verdadeira
trecolução desmacificada, onde a força
seram as das palavras.
Versão
do Ratos de Porão:
Em 1978 nasceram as
primeiras bandas punk de que São Paulo
teve notícia, RESTOS DE NADA
e AI-5. Nessa época, o
Movimento Punk se resumia a um punhado de
gangues que viviam brigando na periferia
da cidade. A "discoteca"
infestava a mídia e devastava qualquer
tipo de música inteligente,
pricipalmente o Rock Nacional, que perdia
cada vez mais espaço. Não existia um
circuito alternativo, gravadoras
independentes, fanzines e etc...
Apesar disso, RESTOS
DE NADA e AI-5
fizeram shows memoráveis pela periferia,
em porões, escolas, sociedades de amigos
de bairro; qualquer lugar virava espaço
para shows. A última apresentação
dessas bandas juntas foi no
"Construção", um salão de
rock na Vila Mazei. A abertura ficou por
conta do Pré-Hardcore dos CONDUTORES
DE CADÁVER. O AI-5
entra na sequência, com seu Punk Rock
básico e de letras bem humoradas. O Punk
de letras políticas e subversivas do RESTOS
DE NADA encerrou a noite.
Quando essas bandas
caíram fora, entre 1980 e 1981, a cena
era bem diferente; vários punks
circulavam pelas ruas de São Paulo; o
Kid Vinil, do VERMINOSE,
havia conseguido um programa na Rádio
Excelsior FM. A Wop-Bop já não estava
mais sozinha, pois o Fabião do OLHO
SECO abriu a loja nas Grandes
Galerias, a Punk Rock Discos, que acabou
virando ponto de encontro como o Largo
São Bento. Surgiu o primeiro fanzine, o
"Factor Zero", feito pelo
Strombus do ANARKÓLATRAS.
A informação
começou a circular, vinda de vários
pontos da Grande São Paulo, ABC e
cidades próximas, e também do exterior,
já que muitos punks se correspondiam com
a Europa. Em 1981 a coisa explodiu;
várias bandas haviam surgido: ANARKÓLATRAS,
FOGO CRUZADO, INOCENTES, OLHO SECO,
LIXOMANIA, M-19 e outras. As
gangues de São Paulo conviviam mais
pacificamente, apesar da treta com os
punks do ABC; isso permitiu que as bandas
organizassem show conjuntos, chamados
"Gritos Suburbanos". O primeiro
"Grito Suburbano" nem chegou a
terminar, pois foi invadido pela
polícia. Mas ninugém desistiu; vários
shows continuaram organizados e foram
responsáveis pelo crescimento do
Movimento.
Quando não havia
show, muitos punks se reuniam no
"Templo" no Pari. Mas foi o
"Teatro Luso-Brasileiro" no Bom
Retiro que se tornou o marco da época.
Foi lá que aconteceram os shows mais
legais. Um desses shows reuniu FOGO
CRUZADO, ANARKÓLATRAS, OLHO SECO,
INOCENTES e CÓLERA. Foi uma
noite inesquecível. A mídia nem
imaginava o que estava acontecendo e
ainda tratava os punks como um bando de
alienados que batiam em velhinhas no
metrô e tomavam leito com limão para
vomitar. Foi quando, em resposta a um
artigo do "O Estado de São
Paulo", Clemente dos INOCENTES
escreveu uma carta que acabou sendo
publicada. E finalmente a mídia
descobriu que havia um Movimento Punk no
Brasil.
Realmente, ele
havia crescido; surgiram várias bandas
boas como JUÍZO FINAL,
DESEQUILÍBRIO, PSYKOSE, PASSEATAS, HINO
MORTAL, GAROTOS PODRES e RATOS DE PORÃO
que fazia um Hardcore muito rápido e
preciso. Os shows eram mais constantes,
os fanzines saíam regularmente e as
bandas brasileiras íam ficando cada dia
mais conhecidas na Europa. Em 1982 foi
lançada a coletânea "Grito
Suburbano" pela Punk Rock Discos,
com as bandas OLHO SECO,
INOCENTES e CÓLERA; foi o
primeiro disco punk lançado no Brasil. E
o Punk virou notícia, vídeo, livro,
filme e tese de mestrado. Mas nem tudo
era um mar de coturnos; a polícia não
dava tréguas; sempre que podia, invadia
shows, prendendo os punks. Era difícil
andar a caráter pelas ruas sem ser
abordado por uma viatura.
Mas apesar da
repressão, ninguém parou de produzir;
outra grande coletânea foi lançada, a
"Sub" pelo selo Estúdios
Vermelhos, com as bandas RATOS DE
PORÃO, PSYKOSE, FOGO CRUZADO e CÓLERA.
E algumas bandas já pensavam em seus
discos individuais. Callegari do
INOCENTES e Antônio Bivar,
autor do livro "O que é Punk",
organizaram um show no SESC Pompéia,
chamado "O Começo do Fim do
Mundo", reunindo vinte bandas de
São Paulo e do ABC em dois dias de caos
e anarquia, com exposição de fotos,
vídeos, fanzines e tudo mais. O show foi
gravado ao vivo e depois lançado em
disco com o mesmo nome
Esse acabou sendo o
único registro de muitas bandas como JUÍZO
FINAL, NEURÓTICOS, PASSEATAS, M-19 e
SUBURBANOS. Havia uns 3.000
punks no Sesc; várias gangues de São
Paulo e do ABC; e a convivência entre
elas, que já era difícil, acabou
ocasionando um princípio de treta. O
festival acabou com as tropas de choque
invadindo o Sesc Pompéia, vários punks
em cana e uma péssima repercussão para
o Movimento.
O ano de 1983
começou bem, com a invasão do Rio de
Janeiro pelos punks paulistas, em um show
no Circo Voador com INOCENTES,
PSYKOSE, ZONA-X, LIXOMANIA, CÓLERA e
RATOS DE PORÃO. O COQUETEL
MOLOTOV, uma das primeiras
bandas cariocas, também se apresentou. A
zona continuou na semana seguinte em
outro show, agora no Morro da Urca,
muitos punks ficaram a semana toda
vagando pelo Rio. Foi a vez do FOGO
CRUZADO e da MACK,
do Alemão; a festa terminou na casa do
velho Pistol Ronald Biggs. Mas foi um ano
ruim; as tretas entre as gangues
recomeçaram; a televisão detonou os
punks; estes acabaram perdendo espaços
que demoraram anos para conquistar.
Dos poucos shows
que aconteceram, apenas alguns foram
realmente bons, como um do HINO
MORTAL, onde o Índio, vocalista
da banda, ia pondo fogo em páginas da
Bíblia enquanto cantava. Mas as coisas
não iam bem; a Punk Rock Discos acabou
fechando as portas. Os fanzines vão
ficando mais raros e os discos também;
muitas bandas acabam e o Movimento vai
perdendo sua força. As bandas que
conseguiram resistir, como RATOS
DE PORÃO, GAROTOS PODRES, INOCENTES,
CÓLERA, etc... tomam rumos
diferentes apesar de todas estarem se
integrando aos poucos à nova cena que se
formava.
O espaço deixado
pelos punks é ocupado por outras tribos
que vão surgindo; várias casas abrem
suas portas para elas: Napalm, Rose Bom
Bom, Ácido Plástico, Any 44, Carbono 14
e, é claro, Madame Satã, que se torna
parada obrigatória inclusive para bandas
de outros estados como DE FALLA,
PICASSOS FALSOS e CASCAVELLETES
de Porto Alegre com seu Psicoabilly
nervoso. É claro que bandas punks
continuaram surgindo, mas sem a mesma
frequência de antes; REPUBLIKA,
RUÍDOS ABSURDOS e LOBOTOMIA,
são algumas edlas. Mas poucas conseguiam
tocar nas melhores casas. O Teatro Lira
Paulistana era o único espaço que
realmente abria suas portas para todas as
tendências; só lá você podia ver
bandas tão distintas como 25
SEGUNDOS DEPOIS, CÉREBRO, SP CAOS ou o
PATIFE BAND do Paulinho
Barnabé. Foi nessa época, início de
1985, que surgiram as revistas
especializadas, programas de clip e as
rádios rock. Os GAROTOS PODRES
foram uma das primeiras bandas punk a
entrar na programação dessas rádios e
ter uma música entre as mais executadas.
Estava se formando um novo circuito pelo
Brasil, mas isso já é outra estória
que merece ser contada por alguém.
O Movimento Punk
jamais será o mesmo, apesar do estilo
sobreviver até hoje a influênciar
muitas bandas que fazem sucesso no
momento. Os Punks voltaram para a
periferia como todo filho pródigo volta
ao lar.